Academias, de Platão à esteira ofegante, me envolvo na deliciosa memória do balé

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Teresa Neves (*)

A palavra sempre me frequentou: academia. Passou a ser familiar aos dez anos, quando comecei a estudar num colégio chamado Academia (de Comércio). Depois, adquiriu amplitude semântica quando ganhei assento nos “bancos acadêmicos” como estudante universitária. Tornou-se, enfim, a designação do âmbito de minha atuação profissional, desde que me tornei professora no ensino superior.

O vocábulo deve sua popularidade a Platão que, em torno de 387 a.C., fundou sua escola filosófica nos arredores de Atenas, num local conhecido como Jardins de Academos. O gesto notabilizou o pouco expressivo herói da mitologia ática, que ajudou os irmãos de Helena de Tróia a libertá-la de Teseu, seu raptor. Devidamente transliterado e espalhado por todo o Ocidente como epônimo, o nome do afamado coadjuvante do fabulário grego empresta prestígio a uma variada gama de escolas e agremiações – científicas ou artísticas, recreativas ou desportivas. Tudo graças à academia platônica.

Ofegante na monotonia saltitante de uma esteira ou bufando no sobe-e-desce enfadonho de um supino, essas divagações ocupavam minha mente. De tudo, o mais difícil era superar a sensação de que o esforço não compensava. Suor demais, prazer de menos; tempo demais, resultado de menos. Só as pessoas que conheci na academia de ginástica valiam a pena. Estas sim! Tive três personal trainers. Dos bons. Profissionais competentes e seres humanos excepcionais. Sem eles, meu empenho em perder peso e ganhar músculos não teria durado uma semana. E durante mais ou menos quatro anos, entre idas e vindas, eu resisti.

BALLERINE SITE NEWGraças às conversas inteligentes e aos afetos trocados. Nunca contei aos três que inúmeras vezes só saltei da cama para calçar o par de tênis, porque minha consciência não me autorizava a deixá-los à minha espera em vão. Mas a tentação, confesso, era imensa.

Jamais consegui entender, por mais que sinceramente tentasse, o ar de satisfação nos rostos que habitam corpos inundados pela transpiração e domados pela repetição de movimentos, para mim, desprovidos de qualquer inspiração. Enquanto trabalhava bíceps e glúteo, tríceps e abdominal, quadríceps e panturrilha, era recorrente a lembrança de como a percepção do exercício intelectual me é muito mais vital e vigorante do que a atividade física. Quando preciso mobilizar intensamente o pensamento, a reação corporal é imediata e inequívoca.

Posso perceber a vibração de cada célula do corpo, num empenho concentrado para vencer limitações não raro indeléveis. O cansaço que experimento neste caso é em absoluto distinto daquele advindo do desgaste exclusivamente corpóreo, pois se origina num âmago recôndito que, creio, nenhuma “remada” ou “prancha” pode alcançar.

Conheço, porém, a mais elementar das cartilhas para uma vida saudável. Sei bem que ideias e reflexões são essenciais, mas impotentes para nos manter sãos e salvos das agruras que nos espreitam. É preciso mexer o corpo; é imprescindível sacudir o espírito. De maneira que fui buscar nas doces reminiscências mais um sentido que a palavra academia imprimiu em mim para sempre. A deliciosa aventura de ter sido um dia bailarina tem enchido de significados e alegrias minhas duas aulas semanais de ballet fitness na academia de dança.

 

 

Teresa PERFIL AVESSO

(*) Teresa Neves é jornalista, professora do
Curso de Comunicação Social da
Universidade Federal de Juiz de Fora
e doutora em Estudos Literários pela UFJF.
Deve publicar este ano sua tese
“Comédias de uma vida arriscada:
risco e riso na crônica brasileira contemporânea”

 

Imagens – Nas fotos, reproduções da tela Ballet Rehearsal on Stage, do francês Edgar Degas ( 1874), e na foto do destaque/chamada, A Primeira Bailarina, de 1878, que integra o acervo do Museu d’Orsay, Paris (França)

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