Avós podem criar círculos virtuosos e ancestrais; delicados como os origamis

Beth Barra

Dia dos Avós. Data que revolve memórias do afeto. Invade lembranças, liberta ternuras delicadas e preciosas como origamis. Esse texto do Avesso, íntimo e pessoal, sobre meus avós Maria Fernandes e José Garcia, vem repleto de saudade. Mas representa, também, uma homenagem e expressão de amor a todos as avós e os avôs que estão pertinho, acariciando seus netos, brincando com eles, mimando-os – sejam crianças, adolescentes, jovens, adultos. Criando e estabelecendo círculos virtuosos, permanentes, além do tempo. Roberto Frejat e Cazuza, em Poema, revisitam fragmentos ancestrais desse amor: …”Porque o passado me traz uma lembrança/ Do tempo que eu era criança/ E o medo era motivo de choro / Desculpa pra um abraço ou um consolo”. (Foto: imagem do Pixabay)

Maria Fernandes

Maria Fernandes, brasileira nascida no interior, sangue espanhol e português, essas misturas tão brasileiras e ricas. Avó que me invade as memórias mais doces: guerreira (sem clave ou espada, do tipo que encarou da vida o que ela lhe deu de mais lindo e mais doloroso), tão capaz de fazer crochê como dirigir um velho jipe e acompanhar o marido na caça – mesmo boa de mira, atirava não, que gostava de bicho no ar e pisando a terra.  Quanta alegria ao posicionar o acordeom. Dominava o instrumento e enchia de sons a casa antiga. Dava turno na loja do vô, aqueles armarinhos com tudo e pouco (linha, agulha, roupinha de bebê), sem máquina registradora, e dinheiro separado em caixa grande, oculto sob o balcão. Maria Fernandes feita de uma bravura repleta de ternura. Forte, mas com uma delicadeza no olhar. E que mão boa para temperar bolinho de feijão e preparar o frango com batata dos domingos em família. Partiu daqui em 1983,  como passarinho: as asas pararam de bater em segundos, um sorriso escondido nos lábios. Vó vaidosa em sua simplicidade, elegante no pouco, alma nobre. Toda manhã lavava o rosto com água de rosas, despejada no vaso de porcelana.  Sempre de batom, unhas pintadas em tons do vermelho ao cereja, creme Ponds para “amaciar o rosto”, pó de arroz da Coty, salto alto, leque para espantar o calor, o rosário para rezar por nós.

José Garcia

Quando era criança, José Garcia me parecia dois. Ora cheio de mimos; ora sério de dar medo. Foi dentista na juventude – época em que no interior a profissão não exigia diploma. Até a mudança para Manaus, em abril de 1973, manteve o mobiliário do consultório – brincava com meus irmãos no “gabinete” (como ele chamava). A cadeira parecia enorme, ainda funcionava, subia e descia; os apetrechos estavam escurecidos, os motores enferrujados. José Garcia andava de bicicleta, modelo grande, com quadro na frente para carregar netos. Ganhava a vida com o armarinho: renda, botões, fitas, alfinetes, linhas, agulhas, lã. Era bom passar as tardes lá, aprendendo a dar troco e me deliciando com picolé no dia de calor. E tinha a troca de turno – vó chegava após o almoço, de sombrinha para se proteger do sol ou da chuva; ele ia pra casa esquentar a marmita e cochilar até o relógio cuco bater 16 horas.  Passei anos sem ver vô até visitá-lo em Manaus, viúvo. Ele foi um belo homem. E  lá estava, aos 85 anos, sem vergar, guardando o orgulho de nunca ter ficado doente.  Em 18 de dezembro de 2001, aos 94 anos, ele se foi. Deixou  uma saudade suave, guardada nas caixas da meninice.

 

O 26 de julho foi oficialmente tornado Dia dos Avós pelo Paulo VI (Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, 26/09/1897 – 06/08/1978) em homenagem a Ana e Joaquim, pais de Maria, mãe de Jesus. Na liturgia católica, eles foram canonizados, no século XVI, pelo pontífice Gregório VIII – e se tornaram Santa Ana e São Joaquim.

 

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