Beber a culpa e dançar com ela sem música; dilacerar-se até os ossos, livremente

Beth Barra 

Ela não queria olhar a estranha forma espalhada pelo chão, fragmentada, sangrando, ferida. Precisava recolher os pedaços, respirando suavemente. Sobre o ladrilho da cozinha, as emoções  esparramadas e  seus pés, descalços e gelados,  enquanto parecia grudada ao banco, experimentando o prazer do café amargo e forte. “Quem foi que viu a minha Dor chorando?!”, repetia a estrofe de Augusto dos Anjos dentro dela, porque naquele tempo se privava de falar sozinha. Deixava tudo para os pensamentos, retirava cadeados, destrancava janelas e portas para que se soltassem, livres; perversos no jogo de machucar. Era boa nisso. Autoflagelação? Três anos de terapia e foi liberada para verter lágrimas e aprender a se gostar, mais tarde, se amar. Mas tinha desaprendido sobre perdão naquela manhã, era beber a culpa e dançar com ela sem música. Dilacerar-se até os ossos, enquanto o coração disparado, quebrado, partido sentia as leves estocadas. Que nem palitos de espetinho, onde caprichosamente o homem do bar enfiava cada pedaço de carne mal passada. Não desejava nada além de um sofrimento silencioso; sem soluço ou barulho.  Lembrou-se das camadas de espelho que guardam as várias ‘personas’.  “Criaturas que nos habitam”, explicara Bia, sua terapeuta. Suas faces sobrepostas, necessitadas de se revelarem e de se harmonizarem. Nos últimos 38 meses, toda semana se acomodava no centro do sofá macio de couro, onde cabiam quatro, cinco pessoas. Depende da circunferência da cintura, disse um dia, fazendo graça para provocar e não convidar ninguém – era doloroso mergulhar no próprio avesso. Não sabia, ainda, quantas delas tinham emergido naquelas sessões. Elas se confundiam, entrelaçadas – “formando o seu eu”. Ah! Bia, justo com esse céu azul: nada de olhos nos olhos com a intrusa racional e calma. Buscava as outras, clamava especialmente pela sobrevivente. Tantas vezes a resgatara da desesperança – era forte, resistente, com ela pisava firme o chão da vida. Precisava, antes, da sua caixa de memórias. Guardar ali aqueles caquinhos doídos e esperar pela colagem natural do tempo. Primeiro a cicatriz meio ardendo; depois ‘desdoer’, o esquecer devagarinho feito Quintana poetou. As mulheres que existiam nela começaram a se exibir em convites cúmplices. E tanto se integraram que chorou pra fora, borrando o rímel da noite anterior. E deu de sonhar, teimosa, com um estado de paz íntimo, pessoal, indivisível. Mas existia a Bia; os espelhos, o sofá – suas camadas. Seria todas e única. Um dia…

 

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