Não seria uma sobrevivente feroz de afetos inventados; amar-se era urgente

Beth Barra (*)

No envelope vermelho, rubro, quase ardente, a carta. Seria escrita à mão, do jeito antigo, caneta de ponta fina, papel branco, simples, sem pauta e talvez com flor dormida para perfumar. Um ensaio não registrado – guardado no fundo da gaveta, escondido, para fingir esquecimento do conteúdo inexistente, farto de sentimentos e uma cortesia ridícula de despedida. Envelope vazio para evitar a dor da entrega – antevendo coração disparado, mãos frias. Teimava em se doer ou se desencantar. Adiando, esperando que o fim anunciado fosse pressentimento vazio.Insistia em ser uma sobrevivente. Pessoas fortes que choram e engolem as lágrimas. Dispensam cartas de adeus e amores de quimeras. Seguem, esquecem, esfriam. Pensou nas bailarinas clássicas, suportando dores nos tendões, flutuando, quase etéreas. Depois chegou a imagem da amiga, seus movimentos ritmados e suaves da ioga: aceitando, compreendendo. Não tinha sapatilha de ponta, nem conhecimento das técnicas de meditação. Recolheu o impulso – tanto esforço para se libertar e ceder à  ilusão. Podia esperar enquanto queimava de ternura, desejo? Morrer, mais um pouquinho, só pelo avesso? Inventar esperança, era boa nisso; mas também tinha treino e memória de afetos desfeitos. Fechou os olhos e se viu menina, aos risos, pedalando. A lembrança de sua companheira da infância veio imensa, preencheu vazios – sentiu o ar fresco, dia nascendo. Frestas de sol brincando com sua dor, insistindo no azul. Feito céu de outono. Rasgaria o envelope rubro e vazio. Não seria uma sobrevivente feroz; amar-se era urgente.

 

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