No meio da dobra, uma rosa, de rosa bem escuro, quase vinho, e um cigarro

 

Avesso De VALE 1

Cláudia Rezende (*)

É a esquina dobrada sábado a sábado. Mas houve um sábado diferente. No meio da dobra, uma rosa, de rosa bem escuro, quase vinho, e um cigarro. Ambos no chão, jogados na dobra. Rosa amarrotada, cigarro pela metade. Ambos tomando sol, no concreto, mudando de cor. Fumou e jogou a rosa fora? Jogou a rosa fora e fumou?

Uma foto. Quero tirar uma foto, porque eu não sei se vou ver a rosa e o cigarro novamente. Alguém vai chutar a rosa, o cigarro. Vão pisar neles. O cigarro, a rosa? Quem vai se perder primeiro? Quem chegou primeiro? Mas não. Vão criticar. Foto de cigarro? Tsc-tsc, você perdeu o trem da história. Foto de cigarro hoje é careta, é contra as normas da boa saúde. Não, não é isso, é politicamente incorreto. Nada de foto. E pare de se coçar.

Deixei a foto, a rosa, o cigarro. Deixei naquele momento, porque os dois andam comigo, não só na dobra da esquina. Não fiz a foto, tive medo. Se eu soubesse desenhar, tentaria fazer igualzinho como estavam. A rosa, o cigarro. Abandonados. O perfume murcho da rosa se misturando à brasa cinza do cigarro. Um cheiro novo para aquilo que foi ou se foi. Se eu soubesse desenhar, eu iria trazer esses dois companheiros para perto de mim, eu mostraria para outras pessoas, dividiria minha dúvida para sempre com alguém.

Fumou e jogou a rosa fora? Jogou a rosa fora e fumou? O que sentia quem fumou e jogou a rosa fora e vice-versa? O que pensava? Será que estava só? Será que chorou? A rosa teria um gosto de sal? O sal apagou o cigarro? Um soluço talvez. Ou não, pode ter sido uma discussão, um encontro. Tudo começa bem e, um dia, tudo não é mais bem. Porque vida é ciclo. E uma rosa vai para o chão. E um cigarro ganha desculpa para existir.

Como um estalo de dedos, ter remorso é muito fácil. Não sabia? Me remoo da foto não tirada. Me torturo me perguntando: ela jogou fora primeiro a rosa ou o cigarro? Ela? E se for ele? Não, tiro os pronomes. Fumou primeiro e jogou a rosa fora. Jogou a rosa fora e fumou.

(*)Cláudia Rezende, especial para o Por A mais B

Avesso Claudinha 2

Os textos de Cláudia Rezende guardam a ternura anticareta dos pequenos registros da vida, das pessoas, de um momento. A jornalista veio antes? Foi exercitando o ofício  que estabeleceu sua prosa e seu lirismo moderno? Essa criatura de tantos talentos possui uma doçura natural, mas expressa em cada linha o imenso mundo que a habita. Uma profissional que anda experimentando novas formas de comunicação – jornalista, professora de História e estudante de Letras (Língua Portuguesa e Língua Francesa) – encarando, ainda, um desafio de mercado com a criação da Bontexto. Cláudia Rezende, camaleônica,  moça bonita, livre da vaidade dos elogios cutucando o ego. Convidamos Denise Rochael para ilustrar a rosa e o cigarro –  escritora e artista plástica que busca poesia em um mundo caótico e opressor. Literatura e arte, rosa e cigarro nesse Avesso especial para o Por A mais B (Beth Barra)

Categoria: Avesso