Quem quer uma barata na sua parede? Insetos inspiram série da artista Denise Rochael

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Denise Rochael: “Preciso encontrar poesia em um mundo caótico e opressor, a arte traz isso” (Foto/arquivo da artista)

 

Beth Barra

Denise Rochael é fascinada pela forma dos insetos. A artista plástica, escritora e ilustradora infanto-juvenil gosta de gente e de bicho; de transgredir, criar, inventar e reinventar. Sua série “SaposCobrasLagartosBaratas” surgiu de uma inspiração caseira e carinhosa, quando customizou uma velha caixa de goiabada, inseriu uma lagartixa e a transformou em um pequeno quadro para o neto Cauã, nascido em 2013. Depois, eles foram chegando. Os insetos no cenário da arte – “esse trabalho me trouxe um novo aprendizado sobre o olhar e iluminou sentimentos noturnos sobre o que estou guardando e perdendo”.

Sua série com os anti-heróis do cotidiano é feita do resgate das tampas de latas de tinta, biscoitos ou caixas de madeira, muitas vezes encontradas nos lixos. “Crio desenhos dos insetos sobre esses materiais; com a arte enobrecendo o descartável e a tinta limpando essa exclusão”. Denise Rochael usa tinta guache e nanquim preto para pintar os insetos; interferindo pouco nas tampas (ou caixas), quase sempre aplicando apenas verniz fosco e transparente no acabamento. O processo de criação é intuitivo, provocado pelo seu próprio traço – “sobre o branco venho com o preto, uma contra-forma, quase uma tinta tatuada sobre a tampa”.

 

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 Quadros da série “SaposCobrasLagartosBaratas”: “quero dar beleza e luz a criaturas com uma iconografia sombria” (Foto/arquivo da artista)

 

Dezenas de sapos, cobras, lagartos e baratas estão pendurados nas paredes, já que as pessoas costumam criar uma pequena galeria com os quadros. “Quero explorar ainda mais o sapo, sua forma e plasticidade são fascinantes”. Ao trabalhar com material descartado e imagens de insetos, Denise imprime beleza e luz a criaturas que estão na Terra há milhares de anos – “esses bichos são do inconsciente,  possuem uma iconografia sombria, sem lugar de evidência, marginais”, diz.

Na série insetos, ao brincar com a linguagem das formas, ela flui sua compulsão por criar e inventar. “Preciso encontrar poesia em um mundo caótico e opressor, a arte traz isso”. Artista e arteira, Denise Rochael busca sempre o inusitado nesses trabalhos, assim como estuda e pesquisa para projetos como a Coleção Arte, com cinco livros lançados pela Cortez. “Estudei e aprendi muito para essa coleção (Pré-História, Egito Antigo, Grécia Antiga e Idade Média e Renascença), um trabalho complexo, de cinco anos entre pesquisas, desenhos e textos”. Ela quer fechar a série com um sexto livro sobre Arte Moderna e os cinco títulos editados, com consultorias de história e de arte, integraram a edição 2015 da Feira Infantil do Livro de Bolonha, Itália. A seleção foi feita pela Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil.

Após  terminar o curso de Artes Plásticas na UFMG, Denise Rochael começou sua carreira ilustrando livros infantis, enquanto paralelamente buscava sua identidade e concepção de arte. Em pouco tempo, começou também a criar suas próprias histórias e descobriu na escrita novos caminhos de expressão. Para ela, que guarda a infância em caixas de lembrar, arte e literatura deveriam ser também foco da educação – “despertam sentimentos construtivos e de conhecimento em crianças e adolescentes”.

 

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Desenhos da  Coleção Arte (Cortez), cinco livros dedicados ao leitor infanto-juvenil, escritos e ilustrados por Denise Rochael, integraram este ano a Feira do Livro Infanto Juvenil de Bolonha, Itália

 

#poramaisb – beth.poramaisb@gmail.com

 

 …sobre  “SaposCobrasLagartosBaratas”

“Tudo começou com uma lagartixa seca. Não, começou com os olhos do Cauã (meu neto) aprendendo a olhar a arte.Sapos, cobras, lagartos e baratas surgiram dos lixos, das latas de tintas jogadas nos lixos com seus enferrujados tão plásticos – surgiram no contraste da massa branca, no traço limpo sobre o lixo – da arte africana que pulsa na minha genética – cobras do meu inconsciente mais escuro, lagartos do meu silêncio – da meditação salvadora da arte. E, baratas! Esses seres de 300 milhões de anos. Sempre mal faladas, mal amadas; não encontrei nada que as salvassem de sua má fama no imaginário mítico. Pobre barata, miserável, elejo, você, minha rainha. Pensei em “sapos cobras lagartos e baratas” porque já estavam no meu inconsciente. Convivo com eles desde sempre, habitando os meus sonhos mais profundos. Pensei em expurgá-los das sombras, traduzir-lhes a beleza, revelar a sua plasticidade. Dar-lhes um lugar de honra nas paredes da casa.Pensei nos avessos. Que eu gosto é dos avessos, o das pessoas, assim como gosto de bicho – até os desprezados, pequenos, resistentes às mudanças do clima, sobreviventes.Por isso, cada um que cuide bem dos seus impróprios. E aí, quem vai querer uma barata na sua parede?” (por Denise Rochael)

 

"SaposCobrasLagartosBaratas": série da escritora, ilustradora e artista plástica Denise Rochael

 

Categoria: Cult, Gente