As emoções são como ondas e precisam estar em movimento; negá-las é adoecer

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Por A mais B: “Emoções são contínuas e importantes mensagens sobre nossas necessidades” explica a psicóloga clínica Isadora Adjuto (Imagem: Pixabay)

Beth Barra

Existe uma crença coletiva de que as emoções desagradáveis precisam ser suprimidas. “Tristeza, angústia, raiva, medo”, diz a psicóloga clínica Isadora Adjuto, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela UFMG. Segundo ela, grande parte da atividade cerebral ao longo do dia é para diminuir e reduzir o desconforto emocional. Por A mais B conversou com a terapeuta sobre a ‘tristeza de final de ano’, que muitas vezes pode levar a um recolhimento íntimo. “É um período de desfecho, o encerramento de um ciclo; cada um vive de forma diferente seus momentos de tristeza, que tem a função adaptativa de manter também nossa saúde, quando ocorre dentro de uma frequência e intensidade naturais. Emoções são contínuas e importantes mensagens sobre nossas necessidades”.

 

“Me refiro à tristeza que possui uma mensagem, ocorre dentro de uma frequência e com uma intensidade natural, que depois dá lugar a outras emoções – são como ondas que precisam estar em movimento”

 

Algumas pessoas parecem mais sensíveis à tristeza, especialmente no final de ano…
A tristeza tem uma função adaptativa e primordial; ela é construída biologicamente e ocupa um espaço importante na nossa sobrevivência e saúde mental. Me refiro à tristeza que possui uma mensagem, ocorre dentro de uma frequência e com uma intensidade natural, que depois dá lugar a outras emoções – são como ondas que precisam estar em movimento. Essa tristeza de final de ano traz também um recolhimento, e quando chega é por um motivo. Se tivesse uma mensagem seria ‘eu preciso de…’

Qual a função da tristeza?
É preciso entender a necessidade que cada emoção esconde. Essa tristeza que parece aflorar no final de ano pode ter duas funções principais. Uma é pedir ajuda; a outra envolve uma reflexão que consolida um aprendizado pessoal e a busca por mudanças. Existe uma crença coletiva de que as emoções desagradáveis precisam ser suprimidas;  grande parte da atividade cerebral ao longo do dia é para diminuir e reduzir o desconforto emocional.  Tristeza é uma emoção de recolhimento, de pausa, pode diminuir o consumo de energia do corpo para levar a reflexões. Quando acolhida e aceita libera nossos espaços emocionais.

triste_ano_isadora1Como não se afogar nessa tristeza sem fugir dela?
A pessoa tende a ficar mais só e algumas podem chegar à conclusão de que precisam de ajuda. Então é preciso buscar conexões com outras pessoas; me recolho, mas ofereço informação de que necessito de apoio. A tristeza é uma emoção que pede acolhimento e o final de ano tem significado de desfecho, encerramento de um ciclo.

Há dificuldade de estabelecer essa ligação e de ser acolhido?
A tristeza oferece uma oportunidade de troca; mas há pessoas que têm dificuldade de demonstrar que estão tristes, como se fosse um sinal de fraqueza. Especialmente nos finais de ano, costuma-se fugir dessa emoção, porém é um tempo de balanço, de revisão em relação à família, trabalho, profissão, amizade…

O individualismo não é um obstáculo para essa troca?
O individualismo não é decisivo ou o ponto central. O importante é como vejo a emoção em mim. Claro que nas relações superficiais existe a dificuldade da troca de emoções. Mas quando divido a verdade a meu respeito posso criar relacionamentos profundos. Você deixa o outro entrar em contato com suas vulnerabilidades, que o liberta também para ser humano. Demonstrar emoções é libertador.

O que é a tristeza adaptativa?
É aquela que vem com intensidade e frequência naturais, seguindo o ritmo de oscilações e acontecimentos da vida. É um tipo de emoção fresca. Como quem vive uma perda, a tristeza chega e permanece por um tempo. Chegar ao final de um ano e refletir sobre a própria vida, e se sentir triste, também é uma emoção fresca e saudável, nos direciona a sanar algumas necessidades.

Como?
A tristeza adaptativa nos leva a ficar de frente com nossas vulnerabilidades, rever o que fizemos, olhar para dentro, sentir e ouvir emoções. O que deveríamos fazer o ano inteiro, isso evitaria esse fenômeno de final de ano – uso a expressão sem uma conotação científica; mas outubro e novembro, por exemplo, são os meses em que mais cresce a busca por terapia. As pessoas querem investigar suas necessidades.

E a tristeza que parece morar com a pessoa?
É a tristeza desadaptativa, aquela que persiste ao longo do tempo com uma intensidade desproporcional. A pessoa precisa de um suporte para sair desse esquema de funcionamento emocional.

Riscos de negar essa tristeza adaptativa?
Quando não vivemos a tristeza ocorre uma congestão emocional, não damos significado e voz às emoções, estamos engolindo, negando. Precisamos higienizar nosso circuito emocional, no caso, acolher a tristeza, gerar uma ação e dar espaço para a próxima emoção.

A negação pode adoecer o corpo?
Enxaqueca, gastrite, falta de energia. Quando não se demonstra a emoção da tristeza ela atinge o corpo, que se torna vulnerável. Lembrando que a doença física é mais aceita socialmente. Por exemplo, quando se desenvolve uma doença auto-imune a pessoa recebe e se permite o acolhimento. Cada emoção que chega é como uma mensageira. Ao perceber sua presença, precisamos dar nome, acolhe-lá e descobrir qual é a mensagem trazida. Nela sempre estão contidas informações valiosas para o nosso bem estar. No fim das contas, para a conquista da saúde integral (física, emocional, mental e espiritual) precisamos deixar de ver as emoções como positivas ou negativas, todas são nossas parceiras, quando recebidas e ouvidas com atenção e compaixão!

 

Isadora Adjuto recomenda a leitura de “Consciência Emocional”, fruto de uma conversa entre Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz de 1989, e o psicólogo e escritor norte-americano Paul Ekman, professor da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Editora Prumo, 312 páginas

 

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