Ave, Marcelo Mastroianni, Por A mais B celebra o ator italiano, nascido em setembro

000000_mastroianni_la_dia_dolce_vita_post1Por A mais B: Como o jornalista de fofocas Marcello Rubini em La Dolce Vita, de Fellini, filme que levou o nome (e talento) de Mastroianni ao mundo (Foto: Reprodução)

000000_mastroianni_post1aBeth Barra

Marcelo Mastroianni encarnou muitas vidas em mais de 150 filmes e 49 anos de carreira. Trabalhou com diretores geniais, entre eles, Federico Fellini – que levou seu nome para o mundo com La Dolce Vita (1960) – Luchino Visconti, Vittorio De Sica, Mario Monicelli, Michelangelo Antonioni, Louis Malle, Ettore Scola, Marco Ferreri, Dino Risi, Nikita Mikhalkov, Giuseppe Tornatore, Robert Altman, Vittorio Taviani e Paolo Taviani, as cineasta Liliana Cavani e Lina Wertmüller, Manoel de Oliveira em Viagem ao Princípio do Mundo (1996), seu último longa. Esse ator de atuações memoráveis, sempre lembrando pelos onze trabalhos com a amiga Sophia Loren, poderia ter ficado marcado como sex symbol após o sucesso de A Doce Vida, mas personificou um impotente em O Belo Antônio, o homossexual Gabrielle de Ontem, Hoje e Amanhã, o aristocrata revolucionário em Allonsanfàn, o intelectual comunista de Os Companheiros, o ativista político em Páginas de Revolução, onde encarnou Pereira, editor de um jornal na Portugal sob o regime salazarista. Sua capacidade de fazer rir o levou às grandes comédias italianas, uma constante em sua carreira, que incluiu também dramas como Os Girassóis da Rússia e um dos mais ternos títulos de sua filmografia – Estamos Todos Bem (1990), de Tornatore. É a história de Matteo Scuro, viúvo aposentado, que vive na Sicília e naquele verão não receberá a visita dos filhos. Ele faz uma jornada de trem a Nápoles, Roma, Milão, Florença e Turim para encontrar cada um, até descobrir com tristeza que não sabe nada deles. Comovente, lírico, poético, envolvendo o coração a cada cena. Por A mais B celebra esse ator bonito, olhar melancólico, talento camaleônico, que nasceu em 28 de setembro de 1924, e morreu vítima de um câncer no dia 19 de dezembro de 1996. Ave, Mastroianni! (Nas imagens, cenas de La Dolce Vita com Anita (Anita Ekberg, que vive a atriz Sylvia Rank, e o cartaz de Cannes 2014, uma homenagem do festival).

O maior ator do cinema italiano nasceu em Fontana Liri, comuna italiana da região do Lácio, hoje com pouco mais de três mil habitantes, filho de um marceneiro. Ele passou a infância na terra natal e depois mudou-se com a família para Turim e, na sequência, Roma, começando as primeiras aulas de teatro em 1945, após trabalhar como figurante em Marionette e A Culpa dos Pais, de Vittorio De Sica, que se tornaria um grande amigo, e com quem faria diversos filmes.

000000_mastroianni_post8O primeiro papel profissional aconteceu nos palcos, a convite de Luchino Visconti, em As You Like It’, de William Shakespeare (1948). No ano seguinte, novamente atuou no teatro, também dirigido pelo cineasta em Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams – época em que conheceu Flora Carabella, sua futura esposa e mãe de Barbara, sua primeira filha. Marcelo Mastroianni teve vários romances e relacionamentos – alguns breves, nascidos nos sets, entre eles com Silvana Mangano, em 1945, e Faye Dunaway, sua partner em Um Lugar para os Amantes (1968), de Vittorio De Sica. Outros longos, o mais conhecido deles com Catherine Deneuve, atriz que se tornou uma grande amiga e com quem teve Chiara Mastroianni.

Ele se envolveu também com Anita Ekberg, Jeanne Moreau, Ursula Andress, Jacqueline Bisset, Brigitte Bardot, Monica Vitti, Romy Schneider, Nastassia Kinski – belas e talentosas atrizes com quem trabalhou em 49 anos de carreira. Um boêmio e ator talentoso, sempre fascinado por belas mulheres, cercado de luxo, mas sem dar importância ao dinheiro. Quando descobriu o câncer de pâncreas lutou contra a doença e o trabalhador compulsivo do cinema, como costumava dizer, fez no mesmo ano de sua morte, 1996, o filme com Manoel de Oliveira. Mas o Marcelo Mastroianni belíssimo e sensual desapareceu nos últimos meses de vida, magro e andando com auxílio de uma bengala até sua morte aos 72 anos de idade. (Fotos – reproduções)

Para os milhares de fãs, a decadência física provocada pela doença pouco importa – valem as centenas de filmes e uma humildade ímpar no glamour cinematográfico. Em uma entrevista, falando sobre Fellini, que o apresentou ao mundo, disse que o cineasta era o artista, ele o executor. Em 1989, em outra entrevista ao El Pais, falou sobre a morte: “não se chora a perda de um ator, que, no fundo, é uma criança, um brinquedo, não é ninguém”.

Em 1996, ano de sua morte, gravou uma longa conversa sobre sua vida, quando filmava com Manoel de Oliveira em Portugal. Mi Recordo, si…mi recordo foi dirigido por Anna Maria Tatò, sua companheira até o fim da vida, um relacionamento de 22 anos. Uma uma espécie de testamento espiritual, intelectual e emocional do genial ator. “Eu acredito na natureza, nos amores, nas afeições, no meu trabalho e nos meus amigos. Adoro as pessoas, adoro a vida, como contrapartida, a vida me amou. Considero-me um homem que teve muita sorte”, diz ele. O documentário tem uma versão de 98 minutos, e outra de mais de quatro horas, e foi exibido nos festivais de Mar el Plata, Veneza e Cannes.

 

“Recordo-me do meu estupor e do meu estado de encantamento quando vi os arranha-céus de Nova York no momento em que o sol estava escondido na Park Avenue”

 

“Recordo-me de um sonho em que alguém me disse para levar comigo as memórias da casa de meus pais”

 

“Recordo-me da pequena frigideira de alumínio sem alça em que minha mãe fritava ovos”

 

(Em Mi Recordo, si…mi recordo)

 

Foi com a direção de Fellini que Marcelo Mastoianni atuou em outra obra-prima do cinema – 8½, de 1963, como Guido Anselmi, um cineasta mergulhado em crise existencial, sem saber como será seu próximo filme. Ele é pressionado pelo produtor, a mulher, a amante, os amigos e ao se internar em uma estação de águas mistura ficção e realidade, passado e presente.

O cineasta Federico Fellin1 entrou novamente em sua vida na década de 80 com Cidade das Mulheres (1980), Ginger e Fred (1985) e Entrevista, com Anita Ekberg, de 1987. Nos oitenta, ele atuou em outros grandes filmes – O Terraço (Ettore Scola, 1980), A Pele (Liliana Cavani, 1981), Olhos Negros (Nikita Mikhalkov, 1987), quando recebeu o segundo prêmio em Cannes e a terceira indicação ao Oscar de melhor ator, além de dois longas com Ettore Scola. Em 2014, sua imagem estampou o cartaz do Festival de Cannes, uma homenagem ao ator que viveu para seu ofício.

Na década de 90, o incansável Mastroianni fez outras dezenas de filme, mesclando diretores italianos e de outros países, mas tinha dificuldades com a língua inglesa. O ator italiano brihou em Estamos Todos Bem (Giuseppe Tornatore, 1990), Prêt-à-Porter (Robert Altman, 1994) – última parceria com a amiga Sophia Loren, Três Vidas e Uma Só Morte (Raoul Ruiz, 1995), quando contracenou com a filha Chiata Mastroianni.

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