Carol Bergocce, a designer que domina a arte da ourivesaria e cria joias inspirada também pelas ‘janelas da vida’

Por A mais B, entrevista: Carol Bergocce criou sua marca em 2010 e trocou o designer de interiores pela  joalheria – “queria exercer a maternidade em sua plenitude; me apaixonei por essa arte” (Foto: Maneco Guimarães)

Beth Barra

Pedras que parecem flutuar, diz Carol Bergocce sobre a técnica de forja, nome que batiza sua última coleção. A designer de joias  desenha e produz cada peça piloto e domina também  a arte da ourivesaria.  “Entrei para a joalheria quando engravidei, queria poder ficar mais tempo com meu filho, exercer a maternidade em sua plenitude. Acabei encontrando uma forma de manter viva minha veia criativa e, ao mesmo tempo, lidar com o trabalho manual que sempre gostei, desde criança”, conta na entrevista ao Por A mais B. Com essa escolha veio também uma rendição completa ao ofício – “me apaixonei”, revela, explicando os caminhos trilhados nos seis anos de sua marca. Um deles é a criação personalizada e feita à mão.

Essas peças são produzidas seguindo coração e desejo de cada pessoa. Um trabalho único e paralelo às coleções – criações envolvidas pela técnica e pela emoção. A multitalentosa Carol Bergocce  confecciona artesanalmente as  joias e busca inspirações na vida –  ” uma planta no caminho, um lugarzinho charmoso para a pausa de beber um café; tudo isso acaba sendo repertório para minhas criações”, diz ela, que adora viver São Paulo. “Ando sempre com um sketchbook para desenhar quando as ideias surgem. Faço esboços rápidos para executar depois”, explica. Antes da joalheria, ela fez Design de Interiores pela Escola Panamericana de Arte e trabalhou nessa área até a gravidez.

Hoje, aos 37 anos, há 15 vivendo em São Paulo – nasceu em Guarulhos – consegue conciliar a arte da joalheria, os cuidados com o filho e se permite tempo de pausas. O que inclui visitas a lugares favoritos como a Cinemateca, o Museu da Língua Portuguesa e o CCBB. E tem a telona! Uma cinéfila com alguns eleitos que envolvem coração e cérebro. Entre os filmes preferidos, Mar Adentro (Alejandro Amenábar, 2005) e Corra Lola, Corra (1999). “O primeiro me chegou como poética da morte a partir da vida e o longa de Tom Tykwer faz pensar como um segundo é capaz de mudar toda nossa trajetória”.

carolb_colecao_forjaCom o ateliê funcionando em sua casa e um filho pequeno, Carol Bergocce não tem horários definidos de trabalho, enquanto as imersões criativas surgem sem aviso.  Essa mulher bonita, que gosta de cinema, de arte e escolheu viver a maternidade em sua plenitude, como contou,  parece harmonizar com leveza  esses compartimentos da vida em família e profissional.

Não por acaso, lança pelo menos duas coleções anuais. Forja, a mais recente, foi toda feita por ela – “é uma antiga técnica da joalheria e toda a peça é feita a partir de marteladas no metal e não envolve solda”.

Desse trabalho nasceram formas arquitetônicas e orgânicas que ela descreve com a paixão da designer e da ourives. “Com essa técnica é possível fazer pecas robustas, mas ao mesmo tempo leves”, explica Carol, que está iniciando os esboços de uma nova coleção.

A arquitetura, por sua formação inicial,  sempre é também uma inspiração para a profissional, que ocasionalmente trabalha com restauração, reparos e recria joias antigas. “Esse resgate de pedras e metais preserva também a memória e a história da pessoa”. (Nas imagens, peças da recente coleção Forja).

 

“A técnica de forja me encanta, pois é possível fazer pecas robustas, mas ao mesmo tempo leves, com pedras que parecem flutuar”

 

Sua marca, lançada em 2010, já nasceu com o conceito de criação artesanal de joias. Você desenha e confecciona cada peça?
Atualmente sim, mas comecei minha história na joalheria na bancada, fazendo a peça sem um planejamento prévio. Tinha na cabeça ideia do que queria fazer e o trabalho ia ganhando forma a partir de algumas experimentações com o metal e as pedras. Só depois fiz cursos específicos de desenho e criação de coleção. A partir daí o trabalho ficou mais estruturado, focado em coleções, não só em pecas individuais.

Na coleção Forja, você usou uma antiga técnica de ourives para esculpir o metal com martelo, moldando-o à forma desejada. Como foi esse trabalho onde de destacam algumas formas arquitetônicas?
As formas arquitetônicas constituem uma de minhas inspirações. Antes da joalheria eu atuava como Designer de Interiores, então tenho isso muito forte em mim. Meus projetos eram essencialmente minimalistas e acabei trazendo isso para a joalheria. A técnica de forja me encanta, pois é possível fazer pecas robustas, mas ao mesmo tempo leves, com pedras que parecem flutuar.

A marca Carol Bergocce está com seis coleções na loja online. Além de Forja, Formas Geométricas, Linhas, Fita, Eterno e Singelo – com os delicados anéis. Já desenhando uma nova coleção?
Sim, ainda esse ano vou lançar outra coleção e com grande variedade, entre anéis, braceletes, colares e brincos. Continuarei com peças robustas, geométricas e assimétricas. Toda minha produção é feita artesanalmente, uma a uma, em prata, mas as peças podem ser encomendadas em ouro e com variações nas pedras.

Você diz que se inspira na vida ao criar suas coleções. O que costuma ver, sentir e captar na sua janela da vida?
Quando se está envolvido no processo de criação, tudo o que se vê inspira, detalhes que antes não percebia acabam tornando-se  fonte de inspiração. Eu, particularmente, gosto muito de “viver a cidade”, frequento exposições, espaços de convívio, shows, além de andar o tempo todo pelas ruas observando pessoas, uma planta no caminho, um lugarzinho charmoso para a pausa de beber um café. Tudo isso acaba sendo repertório para minhas criações.

Um pouco do começo e do aprendizado 
Eu comecei diretamente na bancada, já executando a joia. Depois fui me especializando, fiz cursos de desenho e ilustração, criação de coleção, distintas técnicas de joalheria. Hoje o processo começa em estudos de formas, esboços, perspectivas e só depois vou para a bancada. A peça desenhada é que vai determinar qual técnica será usada, se terá ou não cravação, qual será o acabamento, se receberá banho de outras cores e assim por diante.

E o trabalho de restauração?
Meu foco é mais autoral, mas algumas clientes solicitam restauração, pequenos reparos ou até mesmo a transformação de peças antigas em novas e com novo design. Acho importante esse trabalho de resgate de pedras, metais ou restauro, porque preserva-se a memória e história da pessoa.

Joias que contam histórias, personalizadas, e dentro do orçamento das pessoas. Dai as opções em ouro, prata, a variedade de pedras. Como é o início desse trabalho autoral?
Todas as minhas peças podem ter variação de metal, pedras, recortes e banhos dependendo de quanto se pode investir. Atualmente sinto uma abertura do público para a questão do design, preza-se mais pelo desenho e pela identidade do que propriamente pelo tipo de metal. Houve uma “democratização da joia”, pode-se ter belas peças, com design incrível, feitas especialmente para você, com pedras lindíssimas e valores mais acessíveis.

carolb_detalhe1Joalheria é também a arte de esculpir?
Dependendo da técnica sim! As peças em forja, por exemplo trazem um “quê” de escultural, são belíssimas.

Tem uma joia feita para e por você?
Sim, algumas, mas gosto especialmente de um bracelete (peça única) que fiz em prata reticulada e depois oxidada (Imagem do bracelete ‘carol’)

Você tem uma pedra que a fascine, que chame você?
Eu gosto muito das turmalinas, com suas infinidades de tons azuis, verdes, rosas e vermelhos.

Quanto tempo costuma levar a produção de uma peça única, dá para falar sobre as etapas desse trabalho?
Depende da peça. A questão do tempo varia de acordo com a técnica usada, com o tipo de acabamento e se leva ou não pedra. Eu inicio o processo no desenho e depois defino a técnica a ser usada. Resumidamente, depois que a técnica é definida, funde-se a prata, em seguida ela é laminada e inicia-se o processo de recorte, lima, lixas e polimento. É um trabalho minucioso.

#poramaisb – #bethbarra
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Por A mais B: Joias de Carol Bergocce, coleção Forja
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