Coleções autorais (e usáveis) por Nika Tang, a jovem e engajada designer da Califórnia

Anna Foureauxe e Beth Barra (*)

Nika Tang integra uma nova geração de estilistas, aquela que encara o competitivo mercado norte-americano e reflete sobre excesso de consumo, sustentabilidade, a importância de técnicas artesanais inspirando processos tecnológicos de produção. Criadora autoral, com formação pela Academy of Art University (Art University School of Fashion), um dos mais prestigiados centros de arte e design do mundo, fundado em 1929, Nika nasceu em Guangzhou, na China, e cresceu em Berkeley, Califórnia; estudou, antes, computação e ciência cognitiva. Várias paixões a levaram para a criação – o desenho, a curiosidade pelos elementos gráficos e as pesquisas envolvendo novas proporções e texturas. “Fatores continuamente desafiantes que me encantaram”, revelou ao porAmaisB, em entrevista por e-mail.

Sua participação na edição primavera/verão 2014 da Mercedes-Benz Fashion Week (2013), integrando o line up da Academy of Art University, que apresenta jovens estilistas, revelou seu talento, habilidade e criatividade na coleção cápsula em tons suaves, muito branco, shapes com movimento, volume e textura, combinando o macramé tradicional à alfaiataria e a modernas técnicas de impressão têxtil.

Arte faz parte de seu processo criativo. A collection apresentada em  Nova York teve inspirações em obras dos escultores Kris Kuks e Kim Byoungho, e nos projetos de Maio Botta, arquiteto suíço. O resultado são criações autorais, belíssimas, permeadas por detalhes delicados. Nem por isso, restritas à apreciação de artistas: quem não gostaria de ter um trench coat em neoprene, com uma incrível textura e movimento?

Durante o curso, fez projetos na França – no  Musée des Arts Décoratifs, Paris, integrado ao Louvre, com Les Atelier Lognon (2011) e Maison Lesage (2012). Participações que envolvem a academia, nas quais os alunos, orientados por mestres, pesquisam e propõem novas técnicas e modelagens. A designer admira e estuda os criadores da Antuérpia – de Dries Van Noten a Martin Margiela -, o início de sua formação conceitual foi em um verão em La Cambre, Bélgica. Mas Karl Lagerfeld é seu herói da moda, citado por ela em uma pequena entrevista no site da Academy of Art University. “Ele está no setor há décadas e continua crescendo como designer”.

No spring/summer 2015, Nika começou com a ideia de um flamingo tropical em sua própria terra. Ela trabalhou com pregas e desenvolveu mais esta linha de pesquisa, que iniciou anteriormente em Paris. “A maioria das cores está em denins metálicos, mas algumas eu trabalhei com peles artificiais para criar têxteis gráficas. Pensei mais sobre a minha marca e tentei dar um pouco mais de humor à criação”. Diverso de Macramé, conceituado em formas orgânicas e cartela aquarelada, os tons fortes e o brilho da nova coleção, permeada por peças em black, mostram a disposição da estilista para a experimentação, mantendo a alfaiataria elaborada.

Jovem, talentosa, culta, a estilista mixa seus conceitos de criação à indústria da moda, produção, distribuição e venda. Encarar o mercado como parte do ofício aponta para um futuro harmonioso – “fico ansiosa por ver novos profissionais dando um novo ritmo à moda. Universidades e o próprio mercado estão formando uma geração de designers fortes, com novas linguagens”.

 

Nika Tang Academy of Art University (2)

“O conceito de luxo mudou para mim. Estou lendo mais livros, assistindo mais filmes, criando minhas próprias trilhas sonoras, aprendendo sobre outros aspectos da vida, além da moda” 

 

Você trabalha volumes, sobreposições, alfaiataria em criações limpas – peças com movimento e leveza. Sua primeira coleção tem casacos estruturados, vestidos de shape reto, ombros trabalhados, que à delicadeza da alta costura. A moda é uma expressão de arte para Nika Tang?
Haute Couture implica coisas feitas a mão. Muitas das minhas técnicas exigem pesquisa e paciência. Arte, em geral, é uma escolha. Você escolhe o que quer dizer com sua visão pessoal. Minhas coleções são uma demonstração das escolhas que faço.

Excelência de cortes, acabamentos, textura e sobreposições em criações autorais. Quem é a consumidora da grife Nika Tang?
Como a marca ainda está  desenvolvendo sua imagem e clareza, acho que o meu principal comprador é alguém que pode apreciar a arte e a pesquisa, além dos elementos lunáticos das peças.

Seu conceito de luxo…
O conceito de luxo mudou para mim. Estou lendo mais livros, assistindo mais filmes, criando minhas próprias trilhas sonoras, aprendendo sobre outros aspectos da vida, além da moda -como  beber chá e decoração de interiores. Acredito ser a verdadeira ideia de luxo, pois não se trata apenas de olhar o fabuloso, mas realmente ser capaz de aproveitar a vida, aprecia-la e viver bem. Espero que estas  mudanças adicionem também o luxo ao meu projeto para que eu possa criar com o coração leve, com cores bonitas e trazer vibração na minha roupa. Acho que o meu comprador também será alguém que aprecia isso.

A semana de moda de Londres ainda é a mais conceitual do eixo Nova York/Londres/Milão/Paris – sonhos ou planos de participar da London Fashion?
Sim. A semana de moda de Londres é uma apresentação especial. Baseia-se em uma cidade de muita criatividade e apoio para moda e arte. Espero, um dia, poder mostras lá minha coleção.

Em 1988, seis estilistas da Academia de Antuérpia, na Bélgica – The Antwero Six Collective (Dries van Noten, Ann Demeulemeester, Dirk Bikkembergs, Dirk van Saene, Walter van Beirendonck e Marina Yee) desembarcaram em Londres e participaram da então London Fashion Fair. Foi uma segunda revolução dos conceitos criativos, uma nova assinatura de moda . Eles são inspiradores?
Minha primeira exposição e o início da minha formação conceitual foi um verão em La Cambre, em Bruxelas, na Bélgica. Tem sido um bom alicerce, com estudos baseados em linguagens, técnicas e focado em conteúdo e forma.

Você poderia mencionar outra inspiração?
Sou muito interessada e influenciada pelo processo de design. Se você pode desfazer as coisas, o complicado já não parece tão difícil. Embora eu não seja do tipo superdetalhista, amo o trabalho de Wes Anderson, onde cada cena de seu filme é projetada, a cor, a colocação, tudo em seu devido lugar. Eu aprecio essa dedicação e profundidade.

Você usa o sistema on-line de venda. Sua marca também é encontrada em lojas físicas?
Nós estamos vendendo online, inclusive para o Brasil. Eu me formei um semestre atrás e ainda estou tentando encontrar distribuição. Divulgação e vendas significam um enorme investimento mensal. É um problema que eu ainda tenho que resolver. Deve haver uma solução diferente, pois muitos estudantes que se formam comigo ou estão em consignação ou venda online. Todos nós temos as mesmas dificuldades. Alguns trabalham como estagiários livres, mas conseguem apenas o suficiente para viver e seus talentos são perdidos.

 

Young Talent
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Nika Tang - Lesage Paris
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Criadores da Antuérpia

 

Ann Demeulemeester – “Visitei a loja de Ann Demeulemeester, em Bruxelas. A linha de Demeulemeester carregava uma leveza semelhante à luz da Holanda, gentil, sofisticada e fácil de usar”

Walter Van Beirendonck – “Também visitei sua loja em várias ocasiões, cada vez que ia à Antuérpia. Sua linha sempre foi divertida e colorida. Se eu pudesse voltar para lá, adoraria trabalhar com ele. Acho importante ser jovem e alegre na criação”

Dries Van Noten – “Eu não entendia o trabalho de Dries Van Noten, até depois de estudar as coleções S/S2015. Por sugestão de Manish Arora (estilista), que também trabalha a cor, estudei essa coleção em profundidade e é uma das mais surpreendentes em conceitos de cor”

Martin Margiela – “Seu trabalho influencia meu pensamento e espero que eu possa aprender com ele o entendimento de merchandising e branding. No início, a loja estava em algum beco obscuro, mas as pessoas ainda procuram. É da mesma forma na Ásia, os melhores alimentos estão em algum beco secreto e todo mundo iria encontrá-lo. Espero que um dia, não importa onde minha loja ou a minha roupa vai vender, alguém possa encontrá-lo, por apreciá-la apenas” ((Margiela não integrou o grupo, mas é um dos importantes nomes dessa geração de criadores da Antuérpia, onde fica o MoMu, museu criado para abrigar tudo o que se refere à moda)

(*) Texto final: Beth Barra

#poramaisb
anna.poramaisb@gmail.com;
bethbarramoda@gmail.com

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(Todas as imagens foram cedidas pela designer, de seu site e redes sociais)

 

Fashion Week de Vancouver, do site de Nika Tang