Colombina, Pierrô e Arlequim, a história de amor que renasce a cada carnaval

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Por A mais B: Personagens que inspiraram a arte de Picasso (Pierrô e Colombina); André Derain (Arlequim e Pierrot, detalhe) e Frank Leyendecker (O beijo de Arlequim) entre outros memoráveis pintores ao longo da história (Reproduções)

Beth Barra

Carnaval 2017. Brasil repleto de cores, gente, suor, fantasia. Trios elétricos, macaratu e frevo nas folias de Pernambuco, Salvador de ruas lotadas por todos os sons e ritmos; Rio com as grandiosas escolas de samba. Belo Horizonte com seus blocos enlaçando veteranos e jovens na festa mais popular do país, que se estende a cidades históricas. Mas, no fundo do coração, existe também uma história de amor que vem de séculos, e já inspirou de Chico Buarque a Zé Keti: Colombina, Pierrô e Arlequim, personagens surgidos com a Commedia dell’arte no século XVI, nascida das encenações populares, apresentadas nas ruas e cidades italianas, então como crítica aos costumes e à riqueza da sociedade.

Um triângulo amoroso que também inspirou a arte em telas de Picasso (Pierrô e Colombina, 1900), André Derain (Arlequim e Pierrot, 1924), Frank Leyendecker (O beijo de Arlequim) e muitos outros pintores, além de gerações atuais como a japonesa Mira Fujita e suas ilustrações líricas, algumas tendo um dos personagens como referência. Uma história de amor que remete também ao tradicional Carnaval de Veneza, que esse ano termina em 28 de fevereiro, com as belíssimas máscaras  invadindo as ruas em trajes luxuosos. Arte, mistério e magia na cidade italiana com os mascarados concentrando-se na Piazza de San Marco.

Colombina, Pierrô e Arlequim nasceram das apresentações de ruas mesclados também de humor. Mas a história entre os três personagens atravessou o tempo com um viés romântico, de amores impossíveis, fugas, reconciliações. Eles simbolizavam a sátira social, mas hoje são criaturas de um romance que nasceu das encenações pelas ruas italianas para chegar ao século 21 como uma história romântica.

Pierrô – O nome original vem da França do século 14. Na Commedia dell’arte era Pedrolino, vestido com roupas feitas de sacos de farinha, rosto pintado de branco e sem máscara. Seu personagem era o mais pobre dos serviçais, e alimentava por Colombina, a quem escrevia cartas, um amor platônico.

Colombina – Bela e refinada como sua ama e patroa, pivô do triângulo amoroso que de um lado tem o romântico e tímido Pierrô; do outro Arlequim.

Arlequim – Nas antigas encenações, ele entrava saltitante no palco improvisado e usava a roupa de losangos. Ensaiava passos de dança e movimentos de acrobacia. Tornou-se popular quando deu um beijo em Colombina.

Esse romance satírico desaguou em uma lenda com diferentes desfechos. Colombina apaixona-se pelo sedutor Arlequim, foge com ele, mas um dia acha uma das cartas de Pierrô e vai atrás do amigo de infância. Em algumas versões, os três terminam vivendo juntos; em outras o amor puro do ingênuo palhaço, às vezes representado com uma lágrima nos olhos, ganha o coração da bela.

Entre as músicas de compositores brasileiros, duas se tornaram as mais conhecidas: Noite dos Mascarados, de Chico Buarque de Holanda (1966) e Máscara Negra, de Zé Ketti, lançada em 1967. Letras românticas, mas que também reforçam a liberdade da paixão no carnaval – “Deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que você me quer…”

 

Noite dos Mascarados (Chico Buarque)

Quem é você, adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim
Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco, que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou seresteiro, poeta e cantor
O meu tempo inteiro só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro, só quero um violão
Eu nado em dinheiro, não tenho um tostão
Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte, nasci pra sambar
Eu sou tão menina, meu tempo passou
Eu sou colombina, eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr
Deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou, seja você quem for
Seja o que Deus quiser

 

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Máscara Negra (Zé Keti)

Tanto riso
Oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da colombina
No meio da multidão
Foi bom te ver outra vez
Está fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou, que te beijou meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval

 

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