Divando Debbie Reynolds, a menina pobre que se tornou uma lenda do cinema

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Por A mais B, divando: Debbie Reynolds em Cantando na Chuva ( In the Rain), de 1952, seu filme mais famoso, no qual enfrentou o perfeccionismo e a ira de Gene Kelly (Foto: Reprodução)

Beth Barra

A morte de Debbie Reynolds, aos 84 anos, vítima de um derrame cerebral, um dia depois da de sua filha Carrie Fisher, em 27 de dezembro, emocionou o mundo. Ela teve uma das carreiras mais longas da indústria de Hollywood e continuava trabalhando. “Cantando na Chuva”, de 1952, direção de Stanley Donen e Gene Kelly, também protagonista do longa, a tornou mundialmente conhecida. Os bastidores de In the Rain são repletos de relatos de tensão e do perfeccionismo tirânico do ator/dançarino e diretor. A própria atriz – que abre o divando 2017 do Por A mais B – declarou décadas depois que sobreviver a esse trabalho e dar à luz foram as duas coisas mais difíceis que fez na vida.

Ela chegou as ser insultada por Genne Kelly, de acordo com registros sobre os bastidores da produção, por não saber dançar. Debbie Reynolds tinha 19 anos quando fez In the Rain, acordava às quatro horas e pegava três ônibus para chegar ao estúdio. Jovem e determinada, mas tambéms sensível – foi Fred Astaire quem a viu chorar no set e o mestre da dança a ajudou com algumas lições de sapateado. O longa, que hoje é celebrado como um dos maiores musicais do cinema, não fez  um sucesso arrebatador em seu lançamento – tornou-se um cult anos depois e em 2007 foi consideradoo quinto melhor filme de todos os tempos pelo American Film Institute.

Especialmente nas últimas décadas, Debbie Reynolds costumava assinar alguns de seus posts nas redes sociais como a ‘mãe da princesa Leia’, uma reverência e homenagem à filha Carrie Fischer e sua inesquecível personagem na série Star Wars. As duas costumavam aparecer juntas em entrevistas e também viveram épocas de tensão e afastamento, mas tinham uma ligação profunda. Em março, a HBO deve exibir ‘Bright lights: starring Carrie Fisher and Debbie Reynolds’, documentário sobre sua relação com a filha, exibido em 2016 em Cannes. (Carrie Fischer e a mãe Debbie Reynolds – imagem: Reprodução).

O filho Todd, em entrevista à ABC, disse sobre a mãe: “Ela não morreu de tristeza, ela só queria ficar com Carrie”. Debbie Reynolds estava na casa dele quando se sentiu mal e foi levada para o hospital, um dia após a morte da filha, vítima de um ataque cardíaco durante um voo de Londres para Los Angeles, no dia 23, a ‘princesa Leia’ morreu inconsciente em 27 de dezembro.

“Ela não queria deixar Carrie e não queria que ela ficasse sozinha. Nós estamos de coração partido. Também estamos felizes por elas estarem juntas. É horrível, é lindo, é mágico elas estarem juntas, vai além das palavras, está além da compreensão”, afirmou à rede norte-americana.

De origem humilde, Debbie Reynolds – nascida em 1 de abril de 1932, em El Paso, Texas, foi além da telona, dos musicais famosos e das apresentações como cantora. Tornou-se empresária, era uma estudiosa do cinema, atuava em causas humanitárias – ajudou a fundar um grupo de apoio a pessoas com transtornos mentais. A carreira cinematográfica terminou oficialmente nos anos 70, mas ela apareceu em alguns filmes depois disso, sérise de TV e atuou na Broadway. Aceitou trabalhos em Las Vegas para manter os filhos, e lá abriu seu próprio cassino, fechado em 2007. O local ficou conhecido também por sua coleção de recordações de Hollywood. Ela também criou sua própria rede de televisão, a The Debbie Reynolds Show, que ficou no ar apenas de 1969 a 1970.

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Por A mais B, divando: Debbie Reynolds com Eddie Fischer, primeiro marido e pai de Carrie e de Todd Fischer, o casamento perfeito acabou quando o cantor e ator teve um caso com Elizabeth Taylor, sua grande amiga, com que reatou depois (Imagem: Reprodução)

Em Unsinkable: A Memoir, sua autobiografia, lançada em 2013, Debbie Reynolds relata os anos dourados e o glamour de Hollywood e dos musicais, os altos e baixos da vida e da carreira, os casamentos – foram três em 84 anos de vida. O primeiro com o cantor e ator Eddie Fischer, pai de Todd e Carrie, terminou em divórcio quando o marido teve um caso com Elizabeth Taylor, então sua melhor amiga, com quem reatou a amizade anos depois. A união, que durou de 1955 a 1959, parecia perfeita, o casal aparentemente feliz e jovem; a revelação transformou-se em um escândalo dramático. Mas ela seguiu a vida, ficou mais famosa, atuou em quatro produções no mesmo ano e teve outros amores.

Harry Karl, o segundo marido (1960 a 1973), era  viciado em jogos, o que deixou a atriz em dificuldades financeiras. Nos trezes anos de casamento, ela chegou a cancelar o trabalho nos estúdios às sextas-feiras para participar das reuniões da Tropa de Escoteiras, frequentada pela filha Carrie e a enteada Tina Karl. De 1984 a 1996, ela ficou casada com Richard Hamlett, um corretor imobiliário.

A vida e a carreira transformaram Debbie Reynolds em uma lenda do cinema. Dezenas de filmes e uma única indicação ao Oscar por A Indomável Molly (The Unsinkable Molly Brown, 1964). No longa dirigido por Charles Walters,  com Ed Begley, Harve Presnell e George Mitchell no elenco, ela vive a personagem título. Um bebê que foi encontrado num cesto, aos sete meses, descendo uma corredeira, e adotado por Shamus Tobin (Begley). Quando se torna moça, a intrépida Molly resolve ir para Denver encontar um marido rico – no trajeto conhece o mineiro Johnny Brown (Harve Presnell), mas segue para apequena cidade de Leadville e trabalha como cantora de um bar. Uma história divertida sobre ambição, amor, sorte, fortuna e a diferença entre ter dinheiro e ser aceito socialmente entre famílias  aristocráticas. Debbie Reynolds está perfeita em seu papel, sua bela voz e totalmente à vontade com o principal parceiro de cena.

 

“Podemos ter sido pobres, mas sempre tivemos algo para comer, mesmo que papai tivesse que sair no deserto e atirar nos coelhos”

 

“Uma das vantagens de ter sido pobre é que você aprende a apreciar a boa fortuna e o valor de um dólar, e a pobreza não tem medo de você, porque você sabe que você passou por isso e você pode fazê-lo novamente … Mas nós sempre fomos uma família feliz e religiosa. E estou tentando inculcar em meus filhos o mesmo senso de valores, o mesmo tom que minha mãe me deu”

 

Em 1939, ela foi com a família para Burbank, Califórnia. A sorte começava a sorrir para a menina de 16 anos, que ganhou um concurso de beleza – embora esse não tenha sido um predicado dela exaltado por Hollywood – e logo depois consegue seu primeiro contrato com a Warner Bross, quando Mary Frances Reynolds tornou-se Debbie Reynolds, que vem de um apelido de infância. Os pais, ascendência escocesa-irlandesa e inglesa, eram rigorosos e religiosos. A mãe era lavadeira e o pai cavador de valas.

Quando começou no cinema, Debbie Reynolds contou que não sabia se vestir, não tinha dinheiro, gosto ou treinamento. Mas esbanjava talento, disposição e resistência para encarar a indústria. Deixa um legado de filmes que o tempo transformou em referências de sua bela voz, capacidade de atuação e uma beleza que fugia aos padrões das deusas sensuais da época. Ao morrer, aos 84 anos, em 28 de dezembro, e ir ao encontro de Carrie Fischer, como disse o filho Todd, encenou seu último e mais emocionante ato de amor.

 

NO ESCURINHO COM DEBBIE REYNOLDS

 ♥ Cantando na Chuva (In the Rain, 1952, direção de Gene Kelly, Stanley Donen – Com Debbie Reynolds, Gene Kelly, Cid Charisse

 ♥ O Bonitão da Escola (The Affairs of Dobie Gillis, 1953, direção de Don Weis) – Com Debbie Reynolds, Bobby Van e Bob Fosse

 ♥ Procura-se uma Estrela (Give a Girl a Break, 1953, direção de Stanley Donen) – Com Marge Champion, Gower Champion, Debbie Reynolds e Bob Fosse

 ♥ Uma Esperança Nasceu em Minha Vida (Bundle of Joy, 1956, direção de Norman Taurog) – Com Debbie Reynolds e Eddie Fisher

 ♥ A Indomável Molly (The Unsinkable Molly Brown, 1964, direção de Charles Walters) – Com Ed Begley, Debbie Reynolds, Harve Presnell e George Mitchell

 

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Por A mais B, divando: Debbie Reynolds, uma lenda do cinema (01/4/1932 - 28/12/2016 - imagens: Reproduções)
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