Evandro Santiago, 50 anos de fotojornalismo; paixão visceral pela imagem

Por A mais B, Evandro Santiago, Fotógrafo Convidado, 50 anos de fotojornalismo: “Fotografo de alegre, tenho satisfação, é visceral em mim a fotografia” (Foto de Humberto Nicoline)

Beth Barra

Evandro Santiago é um encantador de pessoas, que gosta de gente, de sorriso de criança, flor, cachorro abanando o rabo de contente. “Sou de bem com a vida, mas um crítico mordaz do mau gosto”, avisa o gentleman, que disse certa vez “chorar em pó, um jeito de extravasar a emoção sem lágrimas”. Em 50 anos de fotojornalismo foi  mestre de pelo menos duas gerações de profissionais, e continua, mesmo longe do burburinho das redações, a levar a todos os lugares sua câmera – companheira de vida. Em 2017, começa um novo projeto, batizado Família Rural, concebido em preto e branco: “estarei norteando todo meu ideal para uma nova fronteira; um trabalho paciente, sem pressa para finalizar”, revela sobre o registro repleto de humanidade que fará das casas, do mobiliário, da vida de famílias mineiras de várias regiões do Estado.  Em cinco décadas, clicou o Brasil, especialmente Minas Gerais – “fotografei a minha aldeia”, disse o fotógrafo convidado do Por A mais B. Olhos verdes, esse cavalheiro de fino trato é discreto sobre a grandeza de seu trabalho, mas sente orgulho pela trajetória de historiador de imagens, que guardam uma parte da vida nacional. A queda de João Goulart,  as forças militares na BH de 1964, os anos de chumbo, os movimentos estudantis, os protestos, as prisões, a censura, a campanha das Diretas Já, a eleição e morte de Tancredo Neves, o ressurgimento da democracia, o retorno dos exilados estão nos fotogramas que guardam o tempo.

Assim como reportagens revelando tragédias do cotidiano e o seu contraponto – arte, música, cultura, dança. Algumas delas envolveram intensamente coração e cérebro: “minha maior emoção foi quando voltei ao século 18, em 1965, na visita a São Bartolomeu”, conta. O distrito, a 22 quilômetros de Ouro Preto, é uma joia barroca. “As antigas igrejas, a arquitetura, o clima do lugarejo eram de uma magia tocante”. As fotos foram para a série de reportagens Caminhos da Estrada Real – “doze mil quilômetros percorridos, em seis meses de trabalho com o crítico de arte Frederico Moraes”, recorda Evandro Santiago sobre essa saga que o levou ao ano de 1714. “Furei botina”, diz. Um jeito especial de resumir os 50 anos de andanças jornalísticas palmilhando cada canto de Minas Gerais.

Botinas que ele não pendurou com a aposentadoria em 2000 e que serão novamente gastas em recantos da Minas rural com o projeto que inicia em 2017.   O fotógrafo Evandro Santiago também guarda desejos. O mais recente é uma Leica 3G – “a mais fantástica câmera analógica que conheço; uma raridade”. Ele sonha com os pés no chão, confessa, ao explicar que sua paixão não custa menos de R$ 50 mil. Mas o caso de amor é visceral: “amo a Leica, a imagem dela é reconhecível, diferente, possui uma definição de contorno que outras máquinas não conseguem, identifico cada foto feita com ela”. Ao longo dos anos, ele teve várias de sua marca preferida, que precisou vender em algum momento. “Hoje tenho uma Panasonic Leica Digital, não é um modelo top de linha, considero o controle de velocidade pobre, mas está dentro das minhas possibilidades”, diz, enquanto acalenta o que chama de seu “obscuro objeto de desejo”. Com sua formação e experiência, ele desfaz ilusões – “ter um equipamento bom é fundamental; o resto é divagação”.

evandro_gota10A expertise vem de muito estudo e pratica. Ele sempre gostou de fotografar com teleobjetiva e grande angular. “Lente normal, de 50mm, não me encanta. Mas entrar dentro da imagem é com uma Leica”. Evandro Santiago alimenta, cotidianamente, novos conhecimentos sobre a fotografia e suas atuais revoluções por minuto – “estudei demais, fiz experimentações, fotos microscópicas, macros”, explica. Em 1980, ele cobriu em BH a visita de Karol Wojtyla, o papa João Paulo II, que celebrou uma missa no Parque das Mangabeiras.  “Quando ele levantou a hóstia e a mostrou ao povo, eu fotografei aquele momento”, recorda. Um fotógrafo apaixonado pelo movimento de gente, objetos, natureza. ” Uma simples gota d’água caindo é ação”, disse em uma entrevista de 1981. Onze anos depois, em uma reportagem na Gruta da Lapinha, fotografou o momento exato em que uma gota d’água se desprendia de uma das colunas do teto. “Cada gota que cai deixa na parte superior um resto de calcário sólido e ao bater no chão deposita o mesmo resíduo,”, explica. Essa formação chama-se estalactite, que lembra colunas inacabadas – “fotografar esse exato instante é uma raridade” diz Evandro Santiago. A famosa foto da gota (imagem ao lado), em preto e branco, participa do Exposure Awards 2015, concurso internacional do LensCulture Prêmios, criado para divulgar o trabalho dos melhores fotógrafos do mundo – incluindo todos os gêneros de fotografia de diversas culturas em cada continente.

 

“Fotografo de alegre, tenho satisfação, é visceral em mim a fotografia”

 

“Fotografar exige também planejamento, foco seletivo; o blur”

 

“O fotógrafo precisa obedecer e conhecer a parte mecânica; ter esse domínio. Depois entra a criatividade, a cultura, a leitura e o cinema, que é uma aula de fotografia trabalhada em planos”

 

“A fotografia precisa dizer tudo; sem legenda”

 

“O fotojornalismo é para a História”

 

A primeira reportagem a gente nunca esquece

Controle de luz, diafragma e velocidade, foco, rapidez. Evandro Santiago foi sendo invadido pela fotografia e sua precisão técnica muito antes da estreia oficial no fotojornalismo. Nos anos 50, ainda adolescente, fez suas primeiras fotos para o extinto Diário da Tarde, a convite de um amigo repórter, sobre o drama de quem vivia onde é hoje a Avenida Pedro II, em BH. Uma matéria sobre o sofrimento e a miséria das pessoas que habitavam o local; uma das imagens era de um menino bebendo água em uma panela, ao fundo o barracão e a mina, onde existia a ‘casinha’ para os moradores usarem como banheiro. “Fotografei com uma antiga Rolleicord”, revelou na entrevista à jornalista Hilma Arruda, publicada em 1981. A foto saiu na capa do jornal e a repercussão foi tamanha que foi publicada, também, no Estado de Minas, e repassada à Agência Meridional, que pertencia ao Grupo Associados, e circulou pelo Brasil. Ele foi contratado e, por 50 anos, trabalhou na empresa, atuando também como freelancer e por 22 anos foi editor de fotografia na Imprensa Oficial – era lá que os novatos iam atrás de seu conhecimento, pacientemente partilhado com os jovens.

 

evandro_santiago_postflorLa fleur du la rajah

O fotógrafo Evandro Santiago é criatura também de suaves paixões. As flores são uma delas e o levaram a salvar uma árvore de magnólia, que agonizava invadida por ervas de passarinhos. Não foi seu primeiro caso de amor por uma planta, mas essa tornou-se especial. “Foi há três anos que a descobri, perambulava pela Avenida Rio Branco, próximo à Catedral Metropolitana, quando a localizei; liguei para a direção de Parques e Jardins”. Ela foi cuidada e floresceu novamente em 2015, sempre acompanhada por Evandro, que a batizou de la fleur du la rajah (a flor do rajar).

Uma variedade branca, da qual ele colheu algumas sementes, que está tentando germinar. Ele descobriu, depois, uma nova magnólia, também ameaçada, no bairro Mariano Procópio, acompanhou o tratamento e a floração da espécie.

 

Fotografia de cinema, aula de arte e de técnica

A estreia no jornal não foi um ocaso. Evandro Santiago nasceu em Januária,  filho de uma família simples e amorosa; ainda menino foi estudar em um seminário. Esses anos formaram uma base para sua cultura, do francês, que é como uma segunda língua, da paixão pela literatura,  da imersão em autores como Rolland Barthes. Quando veio para Belo Horizonte, começou a frequentar o Centro de Estudos de Cinema, espaço onde assistiu grandes e inesquecíveis filmes, entendendo a importância da fotografia em cada obra – a luz, o enquadramento, os planos.

evandro_humberto_post10O fotógrafo foi nascendo com os estudos técnicos, o aprendizado, a arte da revelação, o desafio e a beleza das imagens, então em preto e branco. Hoje, vivendo em Juiz de Fora com a mulher Carmen Brum, que produz artesanalmente o Licores do Brasil, que leva o casal a participar de feiras  eventos de degustação,  ele mantém a paixão incondicional pela arte feita de técnica e de informação.

Sempre fotografando, pesquisando, estudando e ensinando  – uma vida onde há tempo para pequenas viagens e a convivência gostosa em família. Ele reduz distâncias de amigos espalhados pelo Brasil nos contatos online pelo facebook, email, telefonemas. A paixão pelo cinema se mantém, em sessões no Netflix; mas ainda se encanta pelo escurinho da telona.

Dos anos de fotojornalismo, uma tristeza, a venda dos negativos pelo Estado de Minas, que antes ficavam com os profissionais. “Uma grande parte da minha história foi perdida, o que salvei foi o que consegui copiar”. (Evandro Santiago fotografado por Humberto Nicoline)

 

Confira, nas duas galerias de imagens, trabalhos de Evandro Santigo; do fotojornalismo em preto e branco às cores do cotidiano.

 

#poramaisb – #bethbarra
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