“Fotografar é ter tempo também de ouvir histórias que ficam na memória e nas imagens”, Manoel Marques, Fotógrafo Convidado

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Por A mais B, Manoel Marques, Fotógrafo Convidado: “O jovem que fui e o homem que sou estão ligados à fotografia”

Beth Barra

No laboratório do Diário do Povo, em Campinas, ele trabalhava como arquivista e operando o telex. Em uma folga do almoço, acompanhou a revelação de uma foto no laboratório. Essa memória é como se fosse o primeiro click de Manoel Marques, 28 anos de profissão. “Fiquei fascinado”, relembra o Fotógrafo Convidado do Por A mais B. Nascido em Cascavel, no Paraná, passou a infância no sítio e na adolescência foi com a família para a cidade paulistana. “Estudava e comecei a trabalhar em uma imobiliária, emprego que consegui ao entrar para a Associação do Homem de Amanhã, das tarefas de rua passei para o escritório”. Mas o então garoto queria mais, sonhava com uma profissão, e por recomendação do ex-patrão conseguiu a vaga no jornal. “O jovem que fui e o homem que sou estão ligados à fotografia”.

Quase três décadas depois, a paixão pela imagem persiste e habita Manoel Marques. São vários prêmios de fotografia e parcerias com grandes jornalistas em reportagens pelo Brasil e a América Latina. “Quando digo estou feliz é porque fiz a fotografia que queria”, diz ele, desde 2014 vivendo em Belo Horizonte e trabalhando como editor de Fotografia da Secom. Muita estrada e aprendizado nos 28 anos de profissão, a maior parte deles em São Paulo – mudou-se para a capital em 1996 – trabalhou nas redações da Isto É, Época, Veja, frilando para Globo Rural, Viagem e Turismo, Crescer, Maria Claire e outras publicações, além de fotografar para áreas de gastronomia, moda, publicidade.

Mas foi nas revistas semanais, participando de reportagens e percorrendo o país e a América Latina, que viveu aventuras e desafios. “Sempre fui um fotojornalista, sempre gostei de contar e ouvir histórias e do jornalismo investigativo”. Manoel Marques teve uma longa parceria com o jornalista Ricardo Kotscho e outros profissionais – entre eles Gilberto Nascimento, Nirlando Beirão e Hélio Campos de Melo. Com o repórter Leonardo Coutinho, outro grande companheiro de trabalho, fez também muitas matérias, uma delas sobre o narcotráfico na Tríplice Fronteira do Amazonas – Letícia (Colômbia), Santa Rosa (Peru) e Tabatinga (Brasil).

“Ficamos dez dias por lá, andando entre plantações de cocaína, conversando com traficantes, ouvindo histórias, ser ‘mula’ era uma das poucas opções de sobrevivência na região”, diz, sobre as pessoas usadas para transportar drogas, que ganham em torno de R$ 10 mil para levar a encomenda até Manaus.  “A outra maneira de sobreviver é engravidar dos soldados do Exército para garantir uma pensão – é o humano desvalorizado”.

Correr riscos faz parte da rotina de grandes reportagens. Seu portfólio de trabalhos movido a desafios é extenso. Alguns deles marcantes como a cobertura dos ‘brasiguaios’ – “eles cultivavam arroz, soja, milho, girassol nas terras compradas dos paraguaios e começaram a ser expulsos por eles. Visitamos fazendeiros brasileiros armados em suas fazendas para se defenderem, conversávamos com os dois lados do conflito, nos apresentando como periodistas. Um mundo de violência, de terra vermelha e poeirenta, de invasões”.

Os brasiguaios são brasileiros e seus descendentes, que se estabeleceram no Paraguai, próximos à fronteira, uma migração intensificada durante a construção da Hidrelétrica de Itaipu nos anos 70. Eles foram atraídos pelo preço das terras e pela revogação, à época, da proibição de venda para estrangeiros. Mas muitos fazendeiros, até hoje, não têm o título de propriedade e são acusados pelo carperos (os sem-terra paraguaios) de se segregarem, falando sua própria língua, usando a própria moeda e de terem tomado as melhores áreas de plantio do país vizinho.

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Por A mais B, Manoel Marques, Fotógrafo Convidado: Fotojornalismo com alma na série de reportagens percorrendo os canteiros de obras da Transposição do São Francisco

“Trabalhos de muita adrenalina”, conta Manoel Marques, que nas andanças pelo Brasil percorreu todos os canteiros de obras, hoje paradas, da Transposição do São Francisco. Mas fotografar – “é ter tempo também de ouvir histórias”, que ficam na memória e nas imagens. Como a de um homem que encontrou em um lugarejo no Ceará, sentado diante da porta da capela. “Perguntamos o que ele estava fazendo ali e explicou, declamando, que sua mulher estava enterrada no local e toda tarde ele ia ver o pôr do sol”. Nessa reportagem de muitos brasis, eles foram também atrás das pessoas que não tinham acesso à água tratada – um trabalho onde ele captou imagens líricas, de gente e de uma esperança feita de religiosidade. ‘Estávamos em frente a um casebre, o homem chegando no burrico com dois tonéis de água e naquela construção frágil a frase Só Jesus salva“. Para ele, esses encontros desenvolvem a sensibilidade, o respeito e a paciência do profissional.

 

“Fotografar é também acordar de madrugada, viajar por 12 horas e registrar imagens onde as pessoas andam armadas. Mas antes de tudo é uma paixão”.

 

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Por A mais B, Manoel Marques, Fotógrafo Convidado: “Comecei em preto e branco e fui me apaixonando por essa fotografia com alma”

Foi essa paixão que fez o jovem no final dos anos 80 agarrar todas as chances para se tornar um grande fotógrafo, aprendendo inicialmente com veteranos nas redações de Campinas, explorando sua sensibilidade, olhar, dominando técnicas, tempo e pausa e a arte da revelação. Manoel Marques é de uma geração que viveu alguns saltos tecnológicos – das pretinhas para os PCs, dos clicks analógicos para o digital. Mas, além do portfólio das  belas imagens em cores de reportagens e ensaios, ele tem também um caso de amor com a fotografia em preto e branco, que vem do início da profissão.

“É preciso sensibilidade, além da técnica, para captar a luz nas imagens em p&b, que têm glamour, poesia e são lindas. Comecei em preto e branco e fui me apaixonando por essa fotografia com alma”, diz o fotógrafo, que guarda outra paixão – a gastronomia. Tanto que criou sua marca, a Qtal, originalmente Quintal, especializada em pestos e outras especiarias, como sardella pestiche, uma pasta inglesa.

Juntar esses dois amores profissionais é o projeto de Manoel Marques, que está construindo uma pousada em Ipoema, que deve ficar pronta em dois anos. “Vou trabalhar lá também em projetos de livros e documentários, continuar produzindo artesanalmente os produtos e incrementar uma hora orgânica”. O lado G, de gourmet, também remete à infância do fogão à lenha, mais os vários cursos e pesquisas de culinária que continua fazendo.

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beth.poramaisb@gmail.com
bethbarramoda@gmmail.com

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