Fotografei você com a câmera de Daniel Herthel, o ‘marceneiro-inventor’: design + arte nas miniaturas em madeira

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Por A mais B, Daniel Herthel: “As câmaras em madeira são também um convite poético – o que é fotografia? O botão e o click criam essa sensação, a fantasia de fotografar” (Foto: Marcelo Sant’Anna, Original Fotografia)

Beth Barra

Quando criança, o Lego era sempre o brinquedo do ano do cenógrafo, desenhista, escultor e ‘marceneiro inventor’ Daniel Herthel. No canto de uma das paredes da sala de sua casa, na Floresta, um painel exibe as pequenas peças de encaixe, originalmente criadas em 1934 pelo dinamarquês Ole Kirk Kristiansen: “hoje entendo mais minha relação com objetos e design voltando à infância; aquela ferramenta livre me permitia criar tudo o que imaginava”. Formado em Belas Artes pela UFMG, vivendo e trabalhando em Belo Horizonte desde 2003, quando começou a faculdade, há dois anos ele criou a oficina que leva seu sobrenome – de lá saem as peças em pequena escala que encantam colecionadores e crianças. Especialmente as câmeras fotográficas, mais os jogos de peões, a vértebra de livro, o estilete para canhotos – a primeira criação desse novo mundo que envolve madeira, técnica, invenção, pesquisa e estudos sobre formas, dimensões, dispositivos, detalhes, encaixes, acabamento.

“Gosto da criação de objetos infantis, vou dar o nome de brinquedo, mas é objeto”, diz Daniel Herthel sobre as miniaturas de câmeras. “Elas são também um convite poético – o que é fotografia? O botão e o click criam essa sensação, a fantasia de fotografar”, diz o mineiro de Barbacena, que desde ‘muito menino’ desenhava. A avó frequentava uma escola de desenho de observação e sempre estimulou o neto, que fez aulas formais quando escolheu estudar Belas Artes.

As câmaras fotográficas, que causam encanto imediato, são feitas em diferentes tipos de madeira – garapa, roxinho (que ganha cor uva com o processo de oxidação), compensado multilaminado, cedro (‘reconheço pelo cheiro’) e muitas outras. “Já achei na rua pedaços de angelim, que é usada para armários”, conta Daniel Herthel, que frequenta madeireiras e lojas de demolição e vai experimentando as madeiras, verificando se são muito duras ou se lascam, por exemplo. O que se tornou um novo aprendizado.

Recentemente foi a uma fazenda e trouxe madeiras de mais de 100 anos. “Um amigo luthier, que faz violinos, e é o meu oráculo da madeira, vai me ajudar a classificar cada uma delas”. Com esse tesouro centenário, mais câmeras e novas peças vão sair da Oficina Herthel. Ele está desenvolvendo outros objetos, que serão lançados em 2017, no conceito de design e marcenaria envolvendo também mecanismos de movimento. As peças, todas têm impressas sua marca, que foi feita em clichê de latão, e é aplicada antes do acabamento, podem ser compradas em seu site, nas feiras de arte e artesanato, incluindo os famosos bazares e quermesses da designer Mary Arantes. A partir de março, também na Mooca, loja colaborativa na Savassi, criada há dois anos por Mariana Montenegro e Fabi Soares.

 

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Fotografei você com a câmera da Oficina Herthel

As desejadas câmaras de Daniel Herthel – tem a versão mini, que cabe na palma da mão – possuem em média 7 centímetros de altura, 11 de comprimento e 4 de largura. Olhos mágicos – que ele sempre teve para fazer montagens de animações – funcionam como lente e o click vem do botão de eletrônica, em verde ou vermelho.

 

Quando escolheu cursar Belas Artes, Daniel Herthel tinha 17 anos de idade: “me pareceu o certo na época, hoje vejo que foi corajoso”, diz ele. Entre os anos de faculdade, a graduação e a criação da oficina, ele experimentou, aprendeu e aperfeiçoou diferentes modos de trabalhar arte e design. A marcenaria foi montada em 2006 e funciona hoje em um anexo da casa, onde cria todos as miniaturas. “Foram quatro anos de rigor escolar, poderia ter experimentado mais”, diz Daniel sobre o curso, explicando que sua formação, de verdade, começou no Giramundo, construindo mecânica interna de bonecos. Na sala de aula do Ateliê de Escultura da UFMG foi convidado por Eduardo Félix, do Grupo de Teatro Pigmaleão,  na época  bonequeiro no Giramundo, a trabalhar como estagiário.

Em 2004 fez o curso de Mecânica Básica para Artista de Guto Lacaz, no Festival de Inverno de Diamantina. Foi quando despertou a paixão pela ‘arte da invenção’. “A oficina era sobre máquinas simples, transferência de movimentos, força, entender o básico da mecânica, que é como cada peça pode ser encaixada”. Hoje ele tem a clareza de seus caminhos, escolhas, aprendizados: “O teatro de bonecos foi o lugar do ofício, o curso de Belas Artes me deu as ferramentas”.

Criativo, inquieto, investigativo, arteiro. Daniel lembra que o universo do teatro de bonecos era uma referência, mas não seu contexto criativo. Até criar sua oficina e se dedicar ao design de objetos em madeira de pequena escala, ele também trabalhou com cenografia e animação stop motion. Foi também assistente de Rivane Neuenschwander, artista contemporânea.

 

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Por A mais B: Nas imagens, Daniel Herthel na marcenaria da oficina; ” “Fiz minha escolha,  trabalhar com pequenos formatos, pequenas ferramentas, sempre gostei de miniaturas” (Fotos  Marcelo Sant’Anna, Original Fotografia)

No final de 2015, a abertura da oficina unindo arte, design, madeira e mecânica o tiraram de uma espécie de angústia criativa. “Fiz minha escolha, trabalhar com pequenos formatos, pequenas ferramentas, sempre gostei de miniaturas e esse ano quero me dedicar totalmente, pois continuava fazendo cenários, dando oficinas”.  Com seus objetos em miniaturas, detalhes preciosos e instigantes, o domínio da madeira, da forma, do movimento, dos encaixes ele segue encantando com seu trabalho e abrindo mais e mais portas, iniciadas com os cliks de suas câmeras.

Navegue: www.oficinaherthel.com

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Por A mais B: Design + arte + marcenaria + experimentações nas miniaturas em madeira de Daniel Herthel para a Oficina Herthel (Foto: Marcelo Sant'Anna, Original Fotografia)
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Categoria: Décor/Design, Gente, Photos