Jeanne Lanvin, a estilista que criou o seu ‘azul’ e o célebre Robes de Style

Por A mais B, 79 anos da morte de Jeanne Lanvin: Modelo cloche em rosa pálido, um dos delicados chapéus da designer (MET, @reprodução)

Beth Barra

Jeanne-Marie Lanvin tinha 42 anos quando abriu oficialmente, em 1909, sua maison em Paris, na Rue du Faubourg Saint-Honoré. Mas desde os 13 foi envolvida pela moda; primeiro foi a moça de recados entre ateliês e clientes, depois aprendiz de costureira. Aos 18, tornou-se independente como chapeleira – um tempo em que as mulheres tinham o corpo comprimido para seguir o padrão ampulheta, cintura fina e delgada, curvas pronunciadas, seios volumosos pela pressão dos espartilhos. Os belos e delicados chapéus cloche da jovem contrastavam com os modelos exuberantes e exagerados, ornamentados com plumas de avestruz. Entre o final do século 19 e a Segunda Guerra (1945), os modos, a moral, os costumes, a roupa, os cabelos e a maquiagem mudaram ao sabor da Grande Depressão de 1929, da política, das artes, da literatura, da dança, do cinema, do movimento sufragista, das batalhas no front, dos horrores na Europa, da bomba atômica sobre o Japão, da vitória dos Aliados. Madame Lanvin viveu toda essa era e, quando morreu, em 6 de julho de 1946, em Le Vésinet (França), continuava celebrada pelo seu prêt-à-porter e haute couture. Assim como Paul Poiret, Madeleine Vionnet, Elsa Schiarparelli e Coco Chanel, ela revolucionou não só o vestuário, mas o olhar feminino no próprio espelho íntimo. Nos 79 anos de sua morte, Por A mais B homenageia a designer que levou cores, bordados, miçangas e rendas para suas criações; vestidos, túnicas, casacos, saias, blusas. Esplendorosas e divas; joviais e repletas de frescor.

jeanne_lanvin_post_intAs criações de madame Jeanne são como obras de arte; o azul era uma de suas cores preferidas. A estilista criou uma tonalidade que foi chamada ‘bleu Lanvin’, aquarelas suaves e delicadas eram uma das assinaturas da designer. Assim como preto e tons de marinho em dresses memoráveis, ora fluidos; ora com cinturas em evidência nos icônicos modelos batizados Robes de Style. Decotes e saias amplas, plissados ou drapeados, longos e mídis flutuantes em tafetá de seda, chiffon, veludo. Eles se tornaram também símbolo de elegância nos anos 20 – os années folles, que duraram até 1924, embalados pelo jazz, o charleston, os cabelos curtos, lábios vermelhos e os flapper dress, ou vestido combinação. (Nas imagens, madame Lanvin trabalhando em seu ateliê; o mãe e filha, símbolos da mainson, croqui da estilista e dois modelos da célebre criadora – fotos MET, @reprodução) e o vestido preto com aplições de flores, um dos Robe de Style – foto, @reprodução: blog.fidmmuseum.org

Os primeiros vestidos feitos por Jeanne Lanvin foram para a filha Marguerite e suas clientes se encantaram com os modelos coloridos, ternos, que eram realmente desenhados para crianças. Logo depois ela começou a vestir também as mães e abre sua maison de alta costura. Seu estilo jovial no prêt-à-porter, com estampas florais, aplicações de flores bordadas, tons delicados e alegres encantaram as mulheres pela feminilidade e liberdade de uso. O noir com o requinte da modelagem perfeita; aquarelas de nudes e rosados, jogos suaves de tonalidades ou dress vivos em pink, verde esmeralda. Decotes, movimento, caimento perfeito, fluidez e requintes de uma alfaiataria extremamente feminina em chemises longos, arquitetônicos e leves. A estilista era inspirada também pela arte e tornou-se uma colecionadora de obras assinadas por Edgar Degas e Renoir, entre outros artistas.

jeanne_lanvin_la_nuit_paris2Criativa, talentosa, visionária e uma espetacular gestora. Madame Lanvin criou uma fábrica de tingimento em Nanterre, na grande Paris. Abriu lojas dedicadas à decoração, criou uma linha de roupas também para jovens e outra de lingerie. Investiu nos cosméticos, lançou fragrâncias como My Sin (1925) e Arpège, de 1927, que parece ter sido inspirada pelo som das músicas que a filha tocava ao piano.

Anos depois de sua morte, continuou inspirando outros criadores – John Galliano, apaixonado declarado por grandes nomes da moda do início do século 20, reapresentou para a Dior, em 1998, La Nuit de Paris, vestido em preto e branco que madame Lavin criou em 1926 para Jane Renoaunte, diretora teatral. O ex-diretor criativo da casa Dior fez uma celebração à estilista com o vestido, que foi concebido em branco e cinza. (Na imagem, croqui do dress La Nuit de Paris – @reprodução).

 

De Antonio Castilho a Alber Elbaz; Bouchra Jarrar estreia em setembro

Com a morte de Jeanne Lavin em 6 de julho de 1946, aos 79 anos, a maison começou a ser dirigida pela filha Marguerite Marie-Blanche di Pietro – que na infância levou à mãe à criação de moda. O cargo foi assumido depois por Antonio Castillo, que apresentou a primeira coleção em 1951, sempre fiel ao estilo requintado e ultrafeminino da criadora.

A empresa familiar, com a morte de Marguerite, foi herdada por Yves Lanvin, em 1958. Bernard, filho do sobrinho de madame ficou no comando até os anos 90, quando começaram os movimentos de compra de parte da maison até ser totalmente adquirida pela L’Oreal em 1994. Em 2001, quando o grupo de investimentos Harmonie, de Shaw-Lan Wang, adquiriu a marca, Alber Elbaz assumiu a direção criativa. Ficou por 14 anos na grife, até ser demitido e substituído por Bouchra Jarrar, 45 anos, em março último. Uma estilista igualmente sofisticada, dona de sua marca homônima, e membro vitalício da Federação de Alta Costura de Paris desde 2014. Sua primeira coleção será apresentada em setembro, na semana de lançamentos prêt-à-porter.

 

Jeanne e a filha, uma história de amor

A estilista, que deixou um legado na moda, nasceu em 1 de janeiro de 1867, em Paris. De temperamento reservado, chegou a ser considerada antissocial. Mas Jeanne Lanvin foi sempre uma mulher de classe e ligada à filha. Casou-se duas vezes, a primeira delas com o pai de Marguerite. De origem modesta, veio de uma família de dez irmãos, começou a trabalhar na adolescência e alcançou respeito e reconhecimento como grande criadora, que construiu um império. Uma mãe e uma criança, de mãos dadas, são o símbolo da Lanvin – Jeanne e a filha, uma história de amor.

 

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Por A mais B, 79 anos da morte de Jeanne Lanvin: A criadora genial que mudou o 'vestir' feminino e criou o célebre Robes de Style (01/01/1867 - 06/07/1946 - Imagens: MET, @reprodução)
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