Luciana Cordeiro, que criou um ‘novo mundo noiva’ com a Novelo Branco, e ‘Amantikir’, coleção de estreia da grife no prêt-à-porter

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Por A mais B,  Luciana Cordeiro: “Quando usamos a criatividade percebemos que com poucas peças imprimimos muito mais nosso estilo” (Foto: Clero Júnior)

luciana_cordeiro_novelo_branco10Beth Barra

No ateliê de Luciana Cordeiro, uma antiga máquina Elgin traz a lembrança da avó materna, ex-costureira na 104 Tecidos. “Ela trabalhou com Clara Nunes”, diz a estilista, que em 2012 fundou a Novelo Branco, inicialmente para vestidos de noivas – criações únicas em crepe de seda, seda pura, organza, chiffon, renda francesa. Dos dresses fluidos a ‘Amantikir, a serra que chora’, primeira coleção prêt-à-porter da marca, que traz inspirações da Serra da Mantiqueira nos tons, silhuetas, assimetrias e nas pinturas da artista plástica Júlia Fontes em algumas das peças. Criações para a  participação na última edição do Ready To Go (projeto do TS Studio e SindVest) e lançadas no estande coletivo do Salão de Negócios no 20º Minas Trend. Vestidos construídos com decotes, recortes, fendas frontais, cascatas de babados. Um efeito imediato de encantamento pelas formas limpas, contemporâneas, além da perfeição da modelagem e do acabamento invisível,  sem overloque.

“A serra é cheia de nascentes, quedas d’água, corredeiras, e o que mais me encanta na região é essa abundância. Vivemos um tempo em que a água potável é um recurso natural que corre riscos e, de certa forma, eu queria chamar atenção para isso”, explica Luciana Cordeiro sobre ‘Amantikir’, que ganhou o complemento ‘a serra que chora’, uma conexão com o livro do fotógrafo Ricardo Martins, outra referência e inspiração da estilista na estreia da marca no prêt-à-porter. “Para quê ter uma quantidade grande de roupas nos tempos de hoje? Quando usamos a criatividade, percebemos que com poucas peças imprimimos muito mais nosso estilo”, diz a estilista, que elegeu o crepe como protagonista da coleção.

Sua trajetória na moda não começa no ‘era uma vez uma menina que fazia as roupas de sua boneca’. Luciana Cordeiro gostava de desenhar desde criança e viveu a adolescência envolvida por arte e música. Mas aos 17 anos queria conhecer o mundo; fez faculdade de Hotelaria e Turismo. Canudo nas mãos, entendeu que seu desejo era viajar livremente, não atuar na área, e foi estudar Administração de Empresas. Trabalhou na Fiemg no setor do Projeto Compre Bem e nessa função conheceu fábricas de roupas, acompanhou o início do Minas Trend e a vontade de criar foi nascendo.

Com duas graduações em áreas distintas Luciana Cordeiro deu uma guinada profissional e criativa. Fez um curso no antigo CIMO (Centro Integrado de Moda), depois de Consultoria de Imagem com Ilana Berenholc, brasileira que mora em Israel. Antes, pediu demissão da Fiemg, trabalhou por quatro meses no Bureau de Moda e continuou estudando de técnicas ao desenvolvimento de coleções.

A moça que aos 17 anos sonhava em conhecer o mundo emergiu para outras viagens e descobertas. Participou do Tudo de Bom, programa que a jornalista Bianca Lage apresentava na Bandeirantes, um dos primeiros focando moda e transformação com pessoas reais. Os estudos continuavam e cursou Moda no INAP. “Curto, mas completo, desenho de coleção, design e história da moda”, relembra. Incansável, Luciana Cordeiro fez Corte e Costura pelo Método Ioli, criado em 1969 por Iolanda Resende Nolli.

Criou a Triz em 2011, marca urbana com coleções cápsulas – saias, vestidos, casacos e blusas em tecido plano, o que exige técnica para obter o caimento ideal das peças, e algumas malhas. Luciana Cordeiro desenhou o vestido de seu casamento no mesmo ano – um modelo em jersey areia, tingido com chá. “Tinha uma barra, calda discreta e, por cima, um tule amassado; usei um véu curto para cobrir o decote, lindo e simples”, relembra. Logo depois nascia a Novelo Branco,  ateliê  noiva em conceito couture.

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Por A mais B: Vestido de noiva couture da Novelo Branco, marca da estilista Luciana Cordeiro (Divulgação)

Luciana Cordeiro queria ampliar seus conhecimentos e em 2013 foi para Londres. Escolheu a cidade pela efervescência envolvendo moda e arte e fez um curso na Central Saint Martins, instituição que formou nomes como o de Alexander McQueen. “Os desfiles dele me impressionavam”, diz,  ao falar de um dos mais importantes e instigantes estilistas ingleses, que morreu em 2010. “Viver lá mudou meu olhar, conheci outra cultura, me comunicando em outra língua; um período enriquecedor e conflituoso pelas adaptações com um mundo novo”, conta ela, que já morou um tempinho no Sul da Bahia. “Já tinha viajado para o exterior, mas nunca tinha passado pela experiência de viver e estudar em outro país, sozinha”.

“Londres respira cultura, galerias, museus; as pessoas respiram arte lá”, diz Luciana, lembrando que na primeira semana do curso as aulas eram nas galerias com os alunos fazendo ‘desenhos de observação’. O vestido que criou para a formatura no Central Saint Martins foi inspirado em Portinari – uma peça autoral, toda em organza e bege rosado, que precisou doar para a escola, não tinha como trazer: “era volumoso, não cabia na mala”. De volta ao Brasil, e ao ateliê, a estilista continuou suas criações exclusivas de noiva e fez um curso de moulage, a técnica francesa, com Junia Melo, que considera uma de suas mestras. Em 2015 foi contratada como consultora de moda e figurinista da Globo, mas antes da viagem já fazia um quadro de moda no MGTV e mantém sua participação no programa.

 

Confira a entrevista com a estilista Luciana Cordeiro sobre  ‘Amantikir, a serra que chora’. Em outubro (Ready To Go, Minas Trend), ela lança a segunda coleção prêt-à-porter, que envolve pesquisas de novos tecidoss, aviamentos, técnicas de tingimento, modelagens 

 

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Por A mais B,  Luciana Cordeiro: “Gosto de roupas que com um salto ficam elegantes e que podem também ser usadas com um sapato ou um acessório simples em ambientes casuais. Peças que tenham identidade e personalidade” (Foto: Clero Júnior)

Azul Crepúsculo e Horizonte; Urucum Rosa; Bege Margem e Branco Nuvem são as cores de Amantikir. Como nasceu essa aquarela?
Desde o início queria encontrar cores existentes na serra, cores da natureza, cores reais. A serra é cheia de nascentes, quedas d’água, corredeiras, e o que mais encanta na região é essa abundância. Vivemos um tempo em que a água potável é um recurso natural que corre riscos e, de certa forma, eu queria chamar atenção para isso. Mas, além das águas, como boa mineira que sou, me emociono em frente a um mar de montanhas, as curvas das serras, a cor da terra. Essa possibilidade de estar nos vales, escondida atrás das montanhas, e ao mesmo tempo no topo de um cume. Tudo isso influenciou na hora de escolher a cartela.

Fale um pouco sobre as inspirações na coleção Amantikir que vieram da viagem à Serra da Mantiqueira e das conexões com o livro A Serra Que Chora, do fotógrafo Ricardo Martins
Foram as pessoas, o desenho de um horizonte montanhoso, as corredeiras de rios, a fauna e flora, a simplicidade e a exuberância. Quando entramos em contato com o livro, estávamos começando a nossa busca por sair do registro urbano de cidade grande. E foi a partir dele que que eu e meu marido resolvemos ir para a Serra da Mantiqueira. Eu quis trazer isso para a coleção. O livro é belíssimo, tem fotos que nem parecem reais, lugares que estão tão perto, mas que não imaginamos que existem.

O crepe é protagonista da coleção…
Trabalhei o crepe com composição 100% natural e composições mescladas. Meu objetivo era trabalhar com um tecido que tivesse leveza, movimento e, ao mesmo tempo, que fosse encorpado e tivesse um bom caimento.

luciana_cordeiro_novelo_branco11Como foi o trabalho com a artista plástica Júlia Fontes, que pintou à mão algumas peças da coleção?
Conheço a Julia já faz um tempo. Sempre gostei do trabalho dela e mais ainda da pessoa sensível, criativa e amorosa que ela é. Quando eu a convidei para participar contei sobre minha viagem, mostrei o livro, mas ela já tinha feito uma pesquisa sobre a Serra da Mantiqueira, sabia que lá as águas vão desembocar no Rio Grande. Depois ela foi para casa e me mandou uma foto do ensaio que tinha feito. Fez cardumes, pedras e a água correndo de forma abstrata. Eu dei toda liberdade a ela e amei o resultado.  As cores da pintura ficaram próximas às da cartela, mas Julia acrescentou o colorido dela em elementos como os cardumes de peixes, as pedras. O que acendeu e deixou a coleção mais rica. Compartilhar uma criação é um ato enriquecedor e generoso das duas partes e nos trouxe um resultado muito feliz.

Você batizou com um nome cada peça de Amantikir, como o vestido Cascata, conectando silhueta, cor e modelagem à natureza da serra…
Às vezes o desenho do modelo vinha primeiro, às vezes a inspiração despertada por alguma paisagem vinha antes. No caso do vestido Cascata, ele foi feito por causa de uma cachoeira que conheci. Mas também acontecia de olhar para uma fotografia do livro e fazer imediatamente uma ligação com o desenho.

Assimetrias, decotes, recortes, fendas frontais em silhuetas também levemente fluidas, como os vestidos pintados à mão.  Como é o trabalho de modelagem da Novelo Branco?

Como tenho um traço simples e gosto da simplicidade, procuro colocar elementos que enriqueçam a peça. Sempre oriento quem trabalha comigo que tenha uma atenção ao acabamento e ao caimento de cada uma, às vezes, quando fica pronta, e eu percebo que o acabamento não está bom começamos do zero. Conheço as técnicas e sei o que quero no resultado final. Procuro profissionais que saibam trabalhar assim. Esse tempo com noivas me fez ter atenção com o acabamento, desde o início aprendi a fazer dessa forma

Peças em cores únicas, duetos de tons. Uma coleção minimalista também nos babados, recortes, fendas, decotes. Criações limpas e sem ornamentos são uma assinatura Luciana Cordeiro?
Acredito que sim. É o que gosto de fazer. Gosto de roupas que com um salto ficam elegantes em uma festa mais sofisticada e que podem, também, ser usadas com um sapato ou um acessório simples em ambientes casuais. Peças que tenham identidade e personalidade. Para quê ter uma quantidade grande de roupas nos tempos de hoje? Quando usamos a criatividade, percebemos que com poucas peças imprimimos muito mais nosso estilo”.

#poramaisb – #bethbarra
beth.poramaisb@gmail.com
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Coleção Amantikir, prêt-à-porter da Novelo Branco, de Luciana Cordeiro, vestidos Beija-Flor (Fotos: Daniel Cafu)
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