Mixed media, scrapbook, miniaturas, bonecas Tilda; a arte no cotidiano

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Por A mais B, arte do cotidiano: Delicadeza, cor e mix de materiais no trabalho da designer e artista plástica  Andrea Teixeira (Divulgação)

Beth Barra

Aos sete anos, Andrea Teixeira aprendeu a costurar com a tia, criando roupas para sua Susi. A menina que adorava linhas, agulhas, tesoura e papel passava as férias em Lavras e foi lá que começou a sentir o que a inquietava. “Ao longo da vida fui descobrindo que o ‘mais’ que eu tanto procurava só conseguiria encontrar nas minhas criações”, relembra na entrevista ao Por A mais B. Designer e artista plástica, ela cria pequenos mundos com suas miniaturas, muitas delas com material reciclado. Conta histórias de vida nos trabalhos em scrapbook e fotografias e estabeleceu um caso de amor com a Mixed Media, que combina pintura e desenho, técnicas e materiais diversos em um mesmo trabalho. Sem regras, limites.

Ela inclui colagens, fotos, tecidos, gravetos, gesso, jornais em seus objetos do cotidiano – de cadernos a maletas, cúpulas de abajur, porta-retratos. “É o meu eu, minha inquietude. É nela que expresso o significado da liberdade. Trabalhar com esta técnica é um laboratório de emoções”, diz. As bonecas Tilda, feitas de pano e de origem norueguesa, também estão em seu repertório e fazem parte de outras produções dessa criadora intrépida: os mimos personalizados para os noivos presentearem madrinhas, padrinhos, daminhas, família, amigos. São peças personalizadas, confeccionadas à mão, que representam emoções e memórias de cada casal. “Os materiais que uso são variados. Delicados como renda e pérolas, reciclados, de diferentes texturas”.

Pesquisa, sentimento e inspirações movem a designer, que foi a única brasileira entre os 30 selecionados na primeira etapa do Graphic 45, edição 2016, empresa norte-americana que produz material vintage para scrapbook e arte em papel. Agora, conta pra gente Andrea Teixeira sobre o encantamento pelas flores que permeiam seu trabalho: “Sou feliz por opção e me acho muito parecida com elas. Adoro as cores, as texturas”.

 

“Papéis, tesouras, tecidos, alimentam minha alma, as cores e a textura da tinta me seduzem e encantam”

 

 

andreat_entrevistaVocê foi o tipo de menina fascinada por papéis, tesoura, tecidos, cores, colagens, desenhos?
Mais do que fascinada por criação e pela criatura. Aos 7 anos não entendia bem minha inquietude, mas queria mais, mais o que? Mais, mais era tudo o que eu sabia que queria. Ao longo da vida fui descobrindo que o ‘mais’ que eu tanto procurava só conseguiria encontrar nas minhas criações. Com essa idade aprendi com uma tia a fazer roupas para a Susi. Aquelas roupinhas comuns, que todas as meninas tinham, não me contentavam, queria a minha boneca diferente – com bordados, babados e rendas.

Aprendeu a costurar com essa tia?
Comecei a prestar atenção como ela fazia roupas de adultos. Saia, cortava as minhas e voltava, perguntando: o que faço agora, onde costuro, como prego as mangas? Me tornei personal stylist das minhas bonecas. Matava as primas de inveja. Aos poucos fui me aprimorando e costurando para todas as Susis da família.

Essas aventuras entre linhas e agulhas eram nas férias?
Em Lavras, onde passava férias na casa dos avôs. À noite queria aprender a fazer crochê com minha avó, que tecia divinamente com linha de costurar. Ainda não consegui esta proeza, uso linha fina, mas não gosto do resultado do trabalho. Vou conseguir um dia. Minha busca pela perfeição veio dos ensinamentos das avós. A materna me deixava tecer umas boas camadas e depois me mandava desmanchar, até ficar perfeito. Da avó paterna, que também tinha muitas habilidades manuais, outros aprendizados. Ia com as primas à sua loja de tecidos. As netas ficavam responsáveis pelos embrulhos de presente; ela também desmanchava os pacotes e nos mandava fazer novamente. Aos poucos as primas desistiram e eu fiquei. Fui me aprimorando também nos laços e flores, que criava com os próprios papéis da loja.

A escola tinha espaço para sua criatividade?
Na escola, delirava os professores pediam alguns trabalhos. Os mapas eram os mais elaborados e criativos, taxinhas viravam capitais dos estados ou países, a população era ricamente vestida a caráter. Nas festas da escola, fazia parte da equipe de decoração, era a hora de encontrar o mais que tanto procurava. Papéis, tesouras, tecidos, alimentam minha alma, as cores e a textura da tinta me seduzem e encantam.

Em 1995, você descobriu o scrapbook e investiu nessa arte. Depois veio o trabalho com reciclados, como as caixinhas de fósforo que viram cômodas e outros objetos. Como surgem essas paixões?
É a grande magia! Criar desperta devaneios. O meu ser inquieto não se separa da busca pelo meu “mais” e é isto que me nutre. Novas técnicas e novos caminhos. Tenho tudo arrumadinho de forma desordenada na minha cabeça, mas descrever como o processo acontece é um desafio. Essa inquietude muitas vezes me atrapalha, pois migro de uma criação para a outra em um piscar de olhos. Começo pela manhã a trabalhar em um álbum de scrapbook e termino à noite fechando uma almofada em tecido. Tenho vários projetos começados, e não adianta forçar, se não é o momento ele não acontece.

E o uso de material reciclado?
Sempre tive muita resistência, não gostava do que via e não me despertava interesse. Trabalhar com reciclado aconteceu de forma inesperada. Foi procurando soluções para as criações que comecei a enxergar beleza nas peças recicláveis. Foi pesquisando como fazer uma mala em miniatura que vi beleza na caixinha de fósforo. O chapéu de uma boneca, acabei criando usando uma tampinha de garrafa. Comecei a ver trabalhos interessantes na internet, que põe o mundo em suas mãos, não há o que não se possa ver, achar, pesquisar e encontrar. Daí para mesclar técnicas, materiais e inovar foi um pulo.

Como iniciou o trabalho com miniaturas?
Sempre gostei de miniaturas e isto se reflete nas minhas criações. Sempre encontro um jeitinho de inserir uma miniatura em algum trabalho. Foi seguindo esta paixão que comecei a montar minicenários e mais uma vez encontrei os reciclados.

Como é seu processo de criação?
Nunca crio a partir de um projeto, ou seja, não desenho, até já tentei, mas não acontece. Enxergo as peças prontas na cabeça e começo a trabalhar. Muitas vezes o resultado final é completamente diferente daquele que pensei, cores texturas, materiais. Meu ateliê fica um desastre. Mas Rosália, meu anjo protetor, que me ajuda na organização, já sabe disto e sempre pergunta, guardo o material de scrap ou ainda está trabalhando nele? E as tintas, posso pô-las no lugar? Foi em meio a esta inquietude que descobri a Mixed Media, a mescla de técnicas, materiais, cores e texturas. Tudo pode, nada é proibido.

A Mexid Media enlaçou suas emoções?
A Mixed Media é a combinação de pintura e desenho, técnicas e materiais tradicionalmente distintos em um mesmo trabalho. É o meu eu, minha inquietude. É nela que expresso o mais puro significado da liberdade. Trabalhar com esta técnica é um laboratório de emoções, desperta o ser livre que existe dentro das pessoas, cura a alma e liberta o espírito. Começo pelo que tenho à mão, uma folha de papel ou uma caixa de cereais vazia, uma tela, um tubo de cola e jornais velhos. A partir daí o processo determina os materiais que vou precisar, mas a flexibilidade é a beleza dessa arte.

As flores são muitas ligadas a algumas de suas criações
Gosto da alegria das flores. Sou feliz por opção e me acho muito parecida com elas. Adoro as cores, as texturas. Consigo ver seus sorrisos e é isto que me encanta nas flores.

As histórias de vida que conta usando a arte da fotografia eo  scrapbook são um desafio, como explicou. Existe um tempo para essa criação?
São únicos. É a ideia de contar histórias através da arte, reviver emoções e eternizá-las. Cada um tem uma história de vida, vive a emoção de uma forma e meu trabalho é captar essas emoções e transpô-las para os álbuns. Gosto de criar jornais da data do nascimento das pessoas, quando o álbum é em homenagem ao aniversário, ou para comemorar o nascimento de um bebê. Tem que ter uma história, como uma boa mineira gosto de contar “causos” através dos álbuns. Nos álbuns para bebê gosto que o bebezinho mesmo conte sua história, que começa assim: Meus pais se conheceram …. Os elementos de vida têm que fazer parte do álbum e é assim que sempre tem a pulseirinha do nascimento, uma mecha de cabelo ou qualquer outro elemento importante. É um trabalho intenso de pesquisa, mas o maior prazer é ver o brilho nos olhos e por vezes uma lágrima de emoção quando entrego a peça. Nesse momento tenho certeza que a missão daquele trabalho foi cumprida.

andreat_postdetalheComo surgiram os mimos personalizados para os casais presentearem madrinhas, padrinhos, daminhas, família, amigos?
A ideia é fugir do tradicional e inovar. Os casamentos são diferentes, as pessoas únicas e os casais têm histórias. Este momento é especial. O que eu quero dizer é que os noivos devem tratar seus convidados como parte integrante desse momento. Escolher algo personalizado demonstra como essas pessoas são especiais para eles. (Nas imagens, algumas criações da série mimos + noivos, incluindo uma das bonecas Tilda)

E as inspirações para suas Tildas, as bonecas de pano de origem norueguesa. Que encantos são esses?
É a volta ao começo, pois foram as bonecas que me despertaram para o mundo das artes. É uma grande emoção quando uma boneca fica pronta, mas ela tem que ter uma história também. Bonecas são o grande encanto das mulheres. Você já reparou as crianças brincando de boneca? Elas se realizam – são mães, artistas, médicas, tudo o que desejam naquele momento e foi com essa leitura que me apaixonei pela criação das bonecas. A primeira Tilda foi com o vestidinho das minhas daminhas.

Sua arte envolve habilidade e variedade de técnicas e de materiais. Você é do tipo que esquece do tempo?
Perdi a conta de quantas vezes isto aconteceu, sem contar as noites que deito e a mente está muito criativa, e aí não tem jeito, não durmo, tenho que levantar e criar, ou no mínimo esboçar o pensamento, só depois consigo dormir. O tempo é infinito quando estou em meu momento criativo e penso: para que comer? Dormir? Não faz sentido, difícil mesmo é ir ao banheiro quando necessário…

 

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Arte – É uma paixão

Como artista, o que levaria para uma ilha deserta? – Sem dúvida o meu ateliê. Quanta coisa interessante não teria inspiração para criar vendo aquela paisagem! Que sonho.

Um museu do mundo que não conheça e que seja um sonho da artista Andrea Teixeira – Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia (foto). Sei que vou me encantar com a beleza dos prédios e fico imaginando o quão maravilhoso são as obras expostas. Quadros, peças de decoração, joias, louças, roupas, mobiliário da época, tudo vai me encantar. É um sonho que ainda vou concretizar, pode acreditar.

O ateliê de qual artista gostaria de ter conhecido em uma viagem pelos séculos? – O de Leonardo da Vinci, mas também adoraria conhecer o ateliê da contemporâneo “Graphic 45”, sou encantada com os materiais e com as possibilidades de aplicação deles.

Família – Aos meus pais que dedico toda minha gratidão pelos ensinamentos, amor incondicional e sabedoria para viver. Sem eles eu não seria nada. À minha filha me ensinou a amar o diferente; somos opostas e diariamente pratico este entendimento transformando-o em amor. Além disto, adoro música, ar livre, praia e sol. Viagem – Uma grande paixão. Leitura gostaria de ter mais tempo, um detalhe, não sei ler um livro só, por vezes me vejo lendo cinco ao mesmo tempo. Adoro.

 

ANOTE – Andréa Teixeira dá workshops e oficinas e divulga datas nas redes sociais e também em seu site www.ideiasdedea.com.br – Outros contatos pelo celular: 31 9982-1185.

 

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