O paulistano Icaro Tropo e o prazeroso desafio da alfaiataria para crianças com Céu de Icrinho

Por A mais B, moda e quem faz moda: O paulistano Icaro Tropo lançou em julho Céu de Icrinho, marca infantil com criação de ateliê e conceito de alfaiataria; “a criança é sincera sempre, isso é mágico”, diz ele (Foto: portfólio do estilista)

ceu_post4Beth Barra

O apelido de infância de Icaro Tropo batiza Céu de Icrinho, sua marca infantil, lançada em julho. Um paulistano ligado à arte, conectado ao mundo do design, da dança, da música, do teatro. Um criador de alma e mente inquietas, formado em Moda, Técnico em Vestuário pelo Senai, onde também estagiou, vários cursos no Senac. Há mais de 16 anos envolvido em tecidos, aviamentos, estudos de estamparia, modelagem, pesquisas de tecnologia têxtil, ele percorre um novo  e prazeroso caminho com a grife para crianças. Sua expertise em alfaiataria aparece nas peças elaboradas, confortáveis, muitas delas exclusivas. Roupas confeccionadas com tecidos de qualidade, mistura de texturas, estampas, duetos de cores, acabamentos primorosos, tem até rendinha de couro. “Tenho muitas inspirações a cada minuto, cada hora, cada momento. Vejo um poste ou uma casa, árvore, enfim, tudo me inspira, os tecidos e os aviamentos. Meu processo criativo pode vir até de uma frase”, conta o designer na entrevista ao Por A mais B.

“Não gosto de produção, em ateliê não faço nada pensando em produção. Isso mata a criatividade, pensar na peça em grande escala, se ela será cronometrada na máquina de costura”, explica Icaro Tropo, que começou a olhar o mundo infantil pela demanda das amigas, também clientes de sua marca adulta. Muitas delas tiveram filhos e ele pensou que era tempo de seguir e continuar na moda com uma nova história. Além da confecção infantil, o designer continua com seus projetos, que incluem figurinos para teatro e balé.

Antes da faculdade, do Senai e do Senac, começou a estudar Turismo. Deixou o curso após 30 dias e conseguiu a transferência para Design de Moda. E tem sangue de família correndo nessa paixão pelo ofício e a criação? Ele conta que até hoje sua avó e sua mãe costuram e, quando menino, gostava de fazer coisas diferentes: ‘customizava minhas roupas’, recorda. Ele trabalhou no Bom Retiro, que ainda abriga pequenas confecções, o que o levou ao mundo real da moda. Assinou o estilo de várias marcas, integrou a equipe de eventos do CDL, atuou na produção de Moda da MTV. “Sou inquieto, uma pessoa de criação transita por várias áreas”, diz, o que se revela em novos conhecimentos e aprendizados.

Durante quatro anos trabalhou no estilo da Gold Coach, marca de beachwear de Santos. “A criação para mulheres de corpos reais exigiu novos estudos de proporção e modelagem, até mesmo nos croquis”. Após essa temporada, ele lançou Céu de Icaro, ateliê próprio, onde encontrou o espaço para sua inquietude criando roupas de festa exclusivas, assinando figurinos para companhias de teatro e de balé. Peças elaboradas com muito trabalho manual. “Criava, desenvolvia, modelava, cortava, aí veio o aprendizado integral da costura”. Icaro Tropo tinha duas modelistas no ateliê, uma aprendiz, a outra uma mestra – “ela me ensinou muito”.

Céu de Icrinho renovou Icaro Tropo, que escolheu um caminho alternativo, autoral e distante do fast fashion da indústria da moda. Conta pra gente, o que dá mais prazer na criação infantil? “O sorriso de uma criança quando prova e curte a roupa, porque é tão sincera sempre, não é como adulto, que finge que gostou, mesmo desconfortável. Para a criança, favoreceu o corpo, está ótimo. Isso é mágico”, revela ele, que se diverte, e também se derrama em ternura, nas sessões de fotos com seus jovens e espontâneos clientes.

 

 

“O sorriso de uma criança quando prova e curte a roupa, porque é tão sincera sempre, não é como adulto, que finge que gostou, mesmo desconfortável. Para a criança, favoreceu o corpo, está ótimo. Isso é mágico”

 

“A alfaiataria é um termo usado para uma boa modelagem, bem medida, bem enquadrada, adequada de acordo com as armações dos tecidos”

 

“É arriscar mesmo para selecionar público, faço moda para os que curtem a diferença, para os que curtem o artesanato, para os que curtem arte, essas roupas têm alto astral”

 

ceu_post3Quando o coração do Céu de Icrinho começou a bater?
Sabe aquela fase (perto dos 40) que resolvemos rever as coisas? Pois é, tinha frequentando uma boa faculdade, participado de ótimos cursos, trabalhado em boas empresas, galgado boas funções e até ótimos salários, mas nessa hora tudo parece tão inexpressivo, sou artista antes de ser estilista, e minha necessidade de criação é muito maior que tudo isso. Na confecção de hoje em dia pouco se cria, tudo é rápido e muito copiado ou customizado, o infantil foi surgindo, minhas amigas e clientes, que sempre curtiram minhas criações dentro de Céu de Icaro, tiveram filhos, e pensei que era hora de seguir e continuar a história.

Produção de ateliê, detalhes únicos, alfaiataria infantil. Conta um pouco das inspirações e do processo de criação?
A inspiração não se explica, assim como Itamar Assunção na música Transpiração (que amo) não a define. Tenho muitas inspirações a cada minuto, cada hora, cada momento. Vejo um poste ou uma casa, árvore, enfim, tudo me inspira, os tecidos e os aviamentos. Meu processo criativo pode vir até de uma frase. Não gosto de produção, em ateliê não faço nada pensando em produção. Isso mata a criatividade, pensar na peça em grande escala, se ela será cronometrada na máquina de costura. Tenho horror a esse formato. Vivi isso em diversas confecções, que só visam venda, ou seja, a peça tem que ser pratica para poder pagar pouco pelo trabalho em oficinas terceirizadas, cumprir prazos e reduzir custos. A alfaiataria é um termo usado para uma boa modelagem, bem medida, bem enquadrada, adequada de acordo com as armações dos tecidos.

Céu de Icrinho tem vestidos, tops, saias para as meninas confeccionadas em tafetá, neoprene, seda, algodão, detalhes com courinho de renda. Roupas com movimento, graça, godê, balonê. Como é o trabalho de alfaiataria infantil?
Em crianças não é comum usar um bom corte, porque a criança não tem o ‘corpo formado’, não usar pences para encaixe de busto, ou cintura, porque os pequenos são retos, esse é o comum do mercado. Só que resolvi trabalhar um bom molde, fiz algumas peças sob medida e fui desenvolvendo técnicas que permitem um bom caimento, conforto para tecido plano, estruturas do segmento infantil, mais com um ótimo corte, como dizem as avós.

E as criações para os meninos?
Começando nesse momento – mês de agosto, com os meninos, foi quase um protesto das mães deles. Elas são mais necessitadas por só acharem no mercado muita coisa ‘comum’. Confesso que estou testando algumas combinações, sigo o raciocínio de arte conceitual desde sempre, e me seguro bastante, porque ainda existe muitas restrições do que os meninos podem usar. ‘Menino criança’ é muito restrito ainda; agora vejo uma nova geração de mães modernas, de escolas alternativas, mais isso está só no começo. Mas quero fazer coisas lindas para meninos também.

ceu_post6Caveiras divertidas andam invadindo vestidos, tops, camisas, calças. De onde elas vieram?
Vieram desses livros de colorir, teve essa modinha dos livros de colorir para relaxar e alguns de estamparias tinham as caveiras mexicanas. Percebi em algumas oficinas que as crianças adoram as caveiras. Mas não quero que vire marca registrada. Como eu tinha esses prints, acabei por fazer os testes que viraram roupas lindas, mas pretendo usar tecidos lisos, porque já existe muita estamparia dentro desse segmento, e como ateliê, sempre vou ter dificuldade de conseguir estampas exclusivas, pois as empresas não topam produção pequena.

Você mixa estampas lindas e divertidas. Esse “mix and match” mantém a graça infantil. Como é o trabalho de estamparia na Céu de Icrinho?
Desde sempre fiz assim, adoro cores e adoro mix de estampas, e muito mais quando se junta a lisos. É arriscar mesmo para selecionar público, faço moda para os que curtem a diferença, para os que curtem o artesanato, para os que curtem arte, essas roupas têm alto astral. As criações Céu de Icaro para adultos possuem essas características. Não mudei, só estou fazendo infantil, minha essência é a mesma.

Quais os desafios e as motivações de uma marca infantil?
Desafios são todos esses do mercado de moda no Brasil, tudo conspira contra, muito saturado, tudo muito caro (incluindo tecidos de qualidade, aviamentos, sempre com a exigência das empresas de grandes quantidades, as estampas prontas são cansativas, etc). Como quero trabalhar e-commerce, a maior dificuldade, que o país ainda não resolveu, é a padronização das tabelas de medidas. A motivação é o sorriso de uma criança quando prova e curte a roupa, porque é tão sincera sempre, não é como adulto, que finge que gostou, mesmo desconfortável. Para a criança, favoreceu o corpo, está ótimo. Isso é mágico.

Peças do Céu de Icrinho andam passeando pelo Brasil em encomendas diretas. Projetos de uma store online?
Já tive a experiência de loja física e as despesas tiram o sono, a internet é um caminho que estou querendo explorar sim, que acontece naturalmente. Vou precisar focar mais e futuramente pretendo estar em alguma dessas lojas colaborativas, deixar as peças mais exclusivas à venda, porque algumas precisam de prova, ajuste. Existem peças que encontram os donos e não o contrário. Acredito que assim seja.

Você continua desenvolvendo no ateliê peças exclusivas para o consumidor adulto?
Sim, não abandonei os crescidos, só estou mais restrito, porque meu foco atual é outro. Mas já apareceu mãe querendo vestido igual ao da filha e até pai com camisa igual ao do filho. Estou aqui para fazer gente feliz, e me fazer feliz na criação. Me realizo também nos meus figurinos para balé, dança e teatro, por exemplo, e outros projetos que venham a surgir.

#poramaisb – #bethbarra
beth.poramaisb@gmail.com
bethbarramoda@gmail.com

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