Rendeiras do Cariri, a arte da renascença, a estilista, a coleção; uma história real

Por A mais B, tradição, arte, moda: Coleção inverno 2016 de Fernanda Yamamoto e a delicadeza de novas tramas da renascença pelas artesãs do Cariri (SPFW, Fotosite)

Méri Grossi (*)
Especial para o Por A mais B

CARIRI – O sol já escaldava a cabeça às 9h30, quando as rendeiras aguardavam à porta da Associação de Resistência das Rendeiras de Cacimbinha (ARCA), no Cariri Ocidental da Paraíba, distrito de São João do Tigre, quase na divisa com Pernambuco. Cerca de 40 mulheres de idades diversas, a maioria aparentando mais de 50 anos, se reuniram para um dia de workshop com com Fernanda Yamamoto e o paraibano Romero Sousa – designer e profissional multifacetado (produtor, consultor criativo, professor, artista). Esse encontro está  integrado ao projeto ModaPAP, coordenado por ele,  parceria com o Economia Solidária do governo paraibano.  Em 2014, a estilista desembarcou com Romero  pela primeira vez no Cariri. Seu propósito era conhecer o trabalho em renda renascença feito dia a dia, ponto a ponto, na região seca e agreste. A visita virou trabalho, virou coleção e virou um projeto que, segundo a própria Fernanda, “não tem prazo; creio que será permanente”.

cariri_fernanda_post2350O resultado foi exibido para as rendeiras pela primeira vez. Algumas puderam acompanhar o desfile do SPFW, edição inverno 2016, em outubro do ano passado. Com apoio do governo, através do Programa de Artesanato da Paraíba (PAP), elas deixaram o sertão para uma aventura no mundo fashion e algumas desfilaram com as criações nascidas das rendas (Imagens: Fotosite). Outras puderam ver parte do trabalho durante o Festival de Cinema do Congo de 2015, cidade da região que reúne anualmente artistas, diretores e produtores de todo o Brasil. No Cariri, Fernanda Yamamoto fez o que, segundo as rendeiras, ninguém tinha proposto até então: mostrar o uso das rendas que produzem. Com um projetor de última geração, contrastando com a simplicidade do lugar, as imagens foram se sucedendo, apresentando aspectos da região do Cariri: os casarios comuns nas ruas secas e de chão batido; sítios isolados no meio do que parece ser o nada; paisagens áridas; bodes, galinhas, seriemas e uma vegetação de formas incríveis, mas pouco familiares aos olhos urbanos. Foram estas as inspirações para as estampas de Yamamoto em sua coleção do inverno 2016.

“O Cariri é mais bonito do que eu pensava!”

Os tecidos circulam de mão em mão para a análise das rendeiras, cada uma buscando uma compreensão da transformação em tecidos de jacquard e naquela estampa sutil na seda e na organza, tratadas no atelier, por artistas da aquarela. As impressões são as melhores. “O Cariri é mais bonito do que eu pensava!”

No rosto atento das mulheres – acostumadas a dividir a renda com a rotina doméstica, a agricultura, os afazeres, filhos e maridos – a expressão de orgulho vai ganhando forma. À frente das rendeiras, Fernanda Yamamoto fala devagar, de forma simples, e, vez ou outra, chamando pelo nome as bordadeiras, sinal de respeito, de que já conquistou suas colaboradoras.

“Estão aqui as rendas e os novos pontos, as novas formas, que vocês fizeram e que, no começo, acreditaram que não dariam boas peças. Então, viu como deu certo?”, diz a estilista, apresentando fotos e também peças da coleção: casacos, blusas, saias, vestidos. Tudo passando de mão em mão em um reencontro do universo de criação da moda com a legítima arte da renda renascença paraibana.

 

Por A mais B, tradição, arte, moda: Cenas do desfile inverno 2016 Fernanda Yamamoto com looks criados usando o trabalho das novas rendas renascença das artesãs do Cariri (SPFW, Fotosite)

 

Técnicas e novas tramas além dos tradicionais 300 pontos

Fernanda Yamamoto introduz no Cariri mais que novos pontos aos traços da renascença. Também propõe a confecção de rendas em formatos abstratos e diferentes combinações. Estimula a criação, incentiva a ousadia que, aliada à força e coragem das mulheres do Cariri já se transformaram em vestidos, brincos e outras peças autorais levadas para o conhecimento e aprovação da designer.  “Fico muito feliz e sei que estamos no caminho certo, quando vejo que elas assimilaram o aprendizado com os meus pedidos e os nossos encontros”.

A estilista vai ao Cariri com frequência, não existe uma agenda rígida. Mas desde 2014 esteve com as rendeiras pelo menos oito vezes e montou uma logística de trabalho com elas. Manda os desenhos, especifica os pontos desejados ou apenas sugere as formas para que a rendeira tenha liberdade de tecer e criar. Neudenes Albuquerque e Socorro Costa, as duas coordenadoras, se encarregam de distribuir os trabalhos, recolher, pagar a produção e enviar para o atelier em São Paulo.

cariri_fernanda_post4Sobre as técnicas desenvolvidas no ateliê em São Paulo para tratar as rendas e tecidos da coleção, Fernanda Yamamoto e o modelista que a acompanha, Fernando Jeom, demonstraram para as artesãs, no último encontro, o processo do tingimento de tecido com tinta diluída. A feltragem com agulha (usada sobre tecidos e rendas na coleção de inverno 2016). Eles também ensinaram como foi usada a lã pura na feltragem com água e sabão, que se tornou saias e casacos na coleção do inverno 2016.

“A ideia não é só mostrar como trabalhamos no ateliê, é que vocês vejam novas possibilidades do trabalho manual que fazem, das rendas, dos pontos, ampliem as ofertas e desenvolvam novos produtos”, diz a estilista para as artesãs. A proposta, revela a designer,  é respeitar e preservar a tradição da renda renascença e, simultaneamente,  as rendeiras produzam também para um  mercado mais contemporâneo e mais jovem.

Para a designer, as rendas são maravilhosas em seus desenhos tradicionais, mas o público mais jovem não se identifica com elas na forma como são apresentadas. “A inclusão de pontos mais abertos e de técnicas diferentes ajudam as rendeiras a vender suas peças a um custo mais acessível – a renda renascença é a mais cara produzida de forma artesanal no país”, explica Fernanda Yamamoto. E o resultado começa a surgir com a inclusão de pontos que vão além dos 300 já conhecidos e tradicionais dessa arte.

 

Histórias Rendadas

“Uma imagem que me marcou demais na primeira vez que estive no cariri paraibano foi a de uma casinha colorida no meio do nada, no meio daquele chão de terra batida, quase como se ela flutuasse. Com aquele imenso céu azul, azul sem uma nuvem. Em frente à casa, uma rendeira com sua almofada tecendo a renda bem branquinha. Esse movimento de tecer a renda tão delicado e fluido é quase uma sinfonia do encontro entre as mãos, uma linha e uma agulha. A sensação norteou todo o trabalho e simboliza muito o significado por traz da renda. A delicadeza versus a força do feminino; o tempo e o autoconhecimento que o trabalho manual traz. Permanece então a lembrança do papel da mulher brasileira como guardiã de nossa criatividade cotidiana, a evidente necessidade de nos autoconhecer e a certeza de que sempre há algo a aprender e criar a partir de nossa própria história”. (Fernanda Yamamoto em Histórias Rendadas)

 

Documentário revela as mulheres e a vida por traz dos pontos de renda renascença

Na segunda parte do dia, após o almoço, servido na escola estadual de Cacimbinha, Fernanda Yamamoto exibiu o filme Histórias Rendadas, que retrata o trabalho das artesãs, produzido para dar sequência à divulgação, não só da coleção, mas também de como ela foi concebida, apresentando ao Brasil as mulheres e a vida por traz dos pontos de renda renascença. Entre as bordadeiras, além do auto reconhecimento, veio o encantamento expresso nos risos, nos comentários sutis e baixos com a colega do lado.

Nas palavras de Fernanda, a experiência trouxe a certeza de que há sempre algo a aprender e criar a partir da nossa própria história. Após o filme, as rendeiras partiram para o desafio da modelagem. Fernando Jeom, o modelista do atelier Yamamoto, trouxe na bagagem moldes de saias e blusas para ensinar as rendeiras a “tirarem o risco” para desenvolver peças sem emendas. Empenhadas em produzir seus próprios modelos – elas estão acostumada a pagar pelo desenho que bordam, pelo risco e até pelo alinhavo do lacê – se esforçam para retratar cenas de sua realidade como casinhas, palmas e folhagens.

“Com novas técnicas elas aprendem a dominar o processo produtivo, tornam-se mais independentes e podem se desenvolver mais”, diz  Romero Sousa, consultor e membro do Programa de Artesanato da Paraíba. Para o designer e professor, o ganho para as rendeiras no trabalho com a estilista é enorme: “Difícil dizer o que virá. Mas uma coisa é certa, o trabalho por encomenda é garantia de receita e seu resultado dá a elas confiança, autoestima, mais valor”, afirma.

 

cariri_fernanda_post3(*) A jornalista Méri Grossi é fundadora e sócia da
Scritto Comunicação, pós graduada em moda,
gestão e marketing. Vive em Belo Horizonte
e acompanhou a última viagem da estilista
e designer Fernanda Yamamoto
ao Cariri paraibano,
entre os dias 15 e 17 de junho

 

#poramaisb
press.poramaisb@gmail.com – bethbarramoda@gmail.com

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Por A mais B, tradição, arte, moda: "Delicadeza versus a força do feminino; o tempo e o autoconhecimento que o trabalho manual traz. Permanece então a lembrança do papel da mulher como guardiã de nossa criatividade cotidiana" (Fernanda Yamamoto sobre o trabalho com as rendeiras do Cariri - imagem: reprodução)
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Assista o documentário “Histórias Rendadas”

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