‘Vintage e retrô. Velho nem pensar’; designer Drizo no seu banquinho da moda

drizo_vintage_post1Por A mais B, no banquinho do designer Drizo: “Vintage é o termo para indicar a excepcional qualidade de um vinho feito a partir de uma colheita de características únicas e que depois foi apropriado pela moda” (Pixabay)

Drizo (*)

Assim como o sobrenome deste que vos fala sentado no nosso indefectível banquinho, o assunto de hoje começa com um bom vinho.
Ehehehehe, eu explico.

No meu caso Vendemiatti se refere ao vinhateiro, aquele que planta, cuida, colhe e processa a uva. Já vintage é a qualidade de uma boa safra de uva, (vint – relativo a uva e age a idade, nesse caso ano de colheita). Portanto vintage é o termo para indicar a excepcional qualidade de um vinho feito a partir de uma colheita de características únicas. E sabemos que o bom vinho é aquele que ficou descansando em um tonel para amadurecer, tornando-se referência de qualidade e refinamento.

Daí para a Moda se apropriar do termo foi um pulo. Também com tantas analogias seria difícil encontrar outro termo, vamos concordar.

Já retrô é uma peça nova, feita com estética que o assemelhe ao vintage, porém sem o refinamento e preciosidade do material e mão de obra.

Enquanto o vintage é carregado de luxo, pelo exotismo e raridade, o retrô tem bossa, charme e uma dose (mais ou menos) de bom humor.
Os dois termos foram assimilados por várias vertentes de design, desde decoração, passando por embalagens de refrigerante, estamparia, arquitetura, composição olfativa de um perfume, e por aí vai. E claro pela indústria da Moda também.

Mas porque um refrigerante resgata seu visual antigo? O que levou os designers decidirem que a melhor coisa a se fazer para o futuro era o retrô?

Estas duas perguntas tem uma única resposta. IDEIA DE QUALIDADE!

drizo_vintage_post1aPor A mais B, no banquinho do designer Drizo: A bolsa Chanel 2.55, lançada em 2 de fevereiro de 1955, reeditada por Lagerfeld em 2005, no cinquentenário da bag, em couro matelasse e alças de correntes (Imagem histórica; reprodução)

Sim.
Se pergunte quantas vezes você já pensou: Cada desenho mais sem graça, no me tempo eu morria de rir com o Pernalonga. Seriados bons eram Sítio do Pica Pau Amarelo e Elo Perdido. Que horroroso esse armário, como eu queria saber com quem ficou aquela cômoda da casa da minha vó. Garrafa PET é uma porcaria, você já sentiu o gosto da Coca-Cola em garrafa de vidro? Adoro ir ao mercadão, lá eu compro quanto eu quero de arroz, não tenho onde guardar esse monstro de 5 kg. Produto bom você vê logo pela embalagem, vá ver se uma bolsa Chanel vem entulhada de jornal dentro, enfiada em um saco plástico, com a alça toda amassada.

O retrô também é uma estratégia estética (cada vez mais forte) de se agregar um valor (nem sempre existente) a um produto, pela referência que temos do glamour e da qualidade do produto antigo. Aquele feito com esmero, respeito e para durar muito tempo.
Tem uma mesinha aqui em casa que era da minha mãe, cheia daqueles selinhos de imposto pago. Eu tenho vontade de deixar ela com os pés para cima, só para eu ficar olhando, eheheheh.

drizo_vintage_post2aPor A mais B, no banquinho do designer Drizo: “Mesinha com selinho de imposto pago” (Reprodução)

E porque esse revival?

Por conta da invasão que nosso mercado sofreu com o monte de porcaria de baixíssima qualidade vindas do outro lado do mundo, mas também das coisas bem malfeitas aqui, que não se salva nem o saco plástico para usar na lixeirinha da pia.

As empresas querem se distanciar dessa imagem, mas não querem diminuir a margem de lucro com o aumento de qualidade (muuuuuuito ao contrário) e em muito pouco tempo essas embalagens com inspiração retrô vão ser banalizadas, esvaziadas em intenção e perder sua referência.

drizo_vintage_post2bbMas calma, tem muita coisa retrô no mercado que vale cada realzinho investido. Eu mesmo tenho uns trecos aqui que comprei só pelo design eheeheheheheh. Já o vintage é uma referência, é uma história, mas é também um investimento.

A cada ano aumenta o número de pessoas que passam a investir nesse conceito. Criando verdadeiros acervos dignos de museu, que em algum tempo passam valer muitos milhares de reais. Se você caçar na internet vai ver o tamanho desse mundo.

Eu sempre fui apaixonado por objetos que carreguem história e tenho três aqui em casa que são vintage em processo de valorização. São peças que quanto mais o tempo passa, mais caras se tornam.
E tenho um arrependimento que ainda me dói no coração, ter me desfeito de um sobretudo, que comprei em um brechó xexelento em Roma pelo equivalente a R$ 60,00 (sem contar os R$ 50,00 para mandar lavar).

Mas que nem o antigo dono, nem o dono do brechó e nem eu a época, sabíamos que se tratava de uma peça autêntica da época da Segunda Guerra Mundial. Deixei em um banco do Termini por se tratar de um trambolho quente demais, pesado demais e velhinho demais, na certeza que alguém necessitado iria adotá-lo. Só muito tempo depois que reconheci meu erro. Foi quando vi um igual sendo vendido em um site por USD 4.000,00!!!!!!!!!! Pensa em alguém que queria voltar no tempo só pra carregar o tal trambolho que pesava como um cadáver, ainda que fosse sob o sol do verão senegalês.

Hoje tenho um de uma tal grife espanhola radicada no Brasil, que sei que nunca vai se tornar uma peça vintage. Infinitamente mais leve, é verdade, mas que sei que o futuro dele é apenas ser o que já é. Um sobretudo velho.

Enquanto uma roupa ou acessório vintage dificilmente sai do armário, por cuidado de não estragar uma peça valiosa e provavelmente única, a gente brinca com o retrô. Como disse um pouco antes o visual retrô tem bom humor.
Mas veja bem, é um sorriso, não uma gargalhada histérica. Não dá para compor um look inteiro com a proposta. Aí a coisa cai para o figurino ou fantasia de festa temática.

drizo_vintage_post3aPor A mais B, no banquinho do designer Drizo: “O bacana do retrô é justamente se infiltrar harmonicamente no contemporâneo”, na sequência; jeans Damyller; óculos gatinho; camisa branca Richards (reprodução/arquivo); sapato boneca Miu Miu (NetPorter); colar de pérolas; estampa Liberty (Liberty London)

drizo_vintage_post2a_pucciPor A mais B, no banquinho do designer Drizo: “Por falar em estampa, o psicodelismo de Pucci pode sempre e em tudo, desde vestido, blusa, lenço, até em bolsas e sapatos” (Imagens: Reproduções)

O bacana do retrô é justamente se infiltrar harmonicamente no contemporâneo, como um ponto de atração. É a pimenta que se bem dosada é uma delícia, se exagerada…bom você já sabe.

Então a dica é misturar. Uma bolsa com aquele fecho da vovó fica incrível se usada a tiracolo com um vestido mais curto em uma balada. O sapato boneca brinca bem com calças jeans destruídas. A camisa de seda branca vai bem com um short de sarja. Poucas coisas ficam tão bacanas quanto colar de pérola com t-shirt. O vestidão boho vai arrasar se for feito em um composê de estampas Liberty. Por falar em estampa, o psicodelismo de Pucci pode sempre e em tudo, desde vestido, blusa, lenço, até em bolsas e sapatos. Já com os “poás” o cuidado deve ser maior, a chance de ficar caricata é grande.

Óculos gatinha está sempre sendo relido, portanto sinal verde para ele se combinar com seu rosto.

Gosto do peplum (aquela saia rodada curtinha sobre a saia justa e mais longa, ou na barra de casacos). Mas ele é cruel com quem tem o quadril largo.

Poucas coisas são mais retrô que short de cintura alta com fechamento por 6 botões frontais, por isso uma regata de alça fininha pode ser a melhor combinação, se você não quer ousar e o top cropped se a intenção for essa.

Maaaaaaaas se você quiser se jogar de cabeça no estilo, não tenha medo da saia mídi de bolinhas, mega rodada e anágua de tule, só não usa ela em qualquer lugar, ok? O mundo moderno não é generoso com esse excesso de volume e você pode perder um pedaço dela na porta giratória do banco.

Nossa trilha sonora de hoje fomos de Prince com os álbuns Dirty Mind e Lovesexy. Além de Muse com o álbum Black Holes & Revelations.

Beijão do Drizo e até a próxima. Se quiser falar comigo para sugestões, felicitações ou safanões, me acha lá no face.

drizo_textos(*) O designer Drizo (Adriano Vendemiatti),
criador da grife Qndaq, bijus de inspirações
étnicas e produção slow fashion, é um
estudioso e pesquisador de moda, culturas, arte
e colaborador do Por A mais B. “O grande segredo
é esse, nunca se achar informado o suficiente
para ter uma opinião hermética sobre qualquer coisa”

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Categoria: Cult, Moda