As impressionantes e belas imagens do mundo submarino por Marcelo Skaf, fotógrafo convidado do Por A mais B

Marcelo Skaf ao Por A mais B: “O mais importante é o desafio de não ser ansioso. A natureza tem seu tempo e são os animais que se deixam fotografar”

Beth Barra

“A experiência de fotografar a natureza passa a fazer parte de sua alma”, revela Marcelo Skaf, que já ficou quatro meses vivendo em um barco atravessando o Atlântico, deu a volta ao mundo em 90 dias e já explorou os cinco oceanos, além dos mares do Caribe e Vermelho. Suas imagens da vida marinha, registradas ao logo de 20 anos, foram reunidas em Pelos Mares do Mundo (Editora Batel), livro que ele acaba de lançar – “O mundo que margeia os oceanos está diretamente conectado à vida submarina”, diz o fotógrafo convidado do Por A mais B. Mergulhador desde os 15, formado em Oceanologia pela Fundação Universidade Rio Grande (FURG, 1995), um dos fundadores do Instituto Baleia Jubarte e ex-diretor do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, esse cidadão do mundo e das águas uniu paixões, como o respeito pela biodiversidade e o trabalho de fotógrafo, cinegrafista e documentarista – esse, em dupla com o amigo Lawrence Wahba, apresentador de TV, com quem está desenvolvendo um novo projeto sobre tubarões. Tantos amores só competem com a saudade das filhas, de 1 e de cinco anos, tanto que hoje suas viagens são no máximo de 20 dias. Em todo esse tempo entre mergulhos e ao sabor das ondas, muita evolução técnica e novos equipamentos. “Porém, o mais importante é o desafio de não ser ansioso. A natureza tem seu tempo e são os animais que se deixam fotografar”, conta nessa entrevista, de São Paulo, onde mora.

 

“A experiência de fotografar a natureza passa a fazer parte de sua alma”

 

Você começou a mergulhar aos 15 anos de idade. Como e quando a fotografia começou a fazer parte de sua história?
Eu não conseguia traduzir em palavras para meus pais as cores e formas que eu via. Em 1991 ganhei uma câmera super simples e comecei a registrar o universo submarino para mostrar a minha família. Assim começou tudo.

Câmera e fundo do mar são duas de suas paixões. Quais as dificuldades e desafios de fotografar a vida marinha e as paisagens submersas?
Fotografar a natureza talvez seja uma das formas de fotografia mais prazerosas e, ao mesmo tempo, desafiantes que existe. Começamos pelo equipamento, como as condições são muitas vezes difíceis, não é raro termos chuva, grande umidade, calor, frio, areia, sal, quedas e mordidas, o equipamento tem que aguentar o tranco. Ainda nesse item, é importante ter o equipamento certo para o que se quer fotografar, não adianta uma grande angular para uma Baleia Jubarte a 300 metros do barco, pode não funcionar. Mas equipamento é a parte fácil. O segredo da fotografia de natureza, e alguns não admitem isso, são as pesquisas de comportamento dos animais, dos locais e suas condições (meteorológicas, facilidades, transporte, etc.) e a ajuda de guias locais. Cada um desses itens potencializa os encontros e observação de comportamentos. Animais migram…existem épocas de chuva e seca. Respeitar o conhecimento local e aceitar a ajuda de guias é quase uma regra.

E os desafios?
Com tudo isso na mão, vêm os desafios. Pois nada disso, apesar de ser fundamental, garante as imagens. Para fotografar a natureza você precisa se desapegar de certas coisas urbanas, como o conforto. São poucas horas dormidas, acordar às três da manhã para ter a melhor luz, comer o que for apresentado e quando for apresentado. Você tem que carregar equipamentos como tripé, câmeras, lentes, baterias.

O encontro com as criaturas do mar?
Vamos supor que você tenha essa vocação shark, ainda temos que achar os animais. E isso com você pronto para fotografar, a luz correta e o ângulo favorável. Pode demorar dias para uma imagem, é comum passarem-se horas e horas na espera, sem nada acontecer. Muita paciência, tempo, estar no lugar certo na hora certa.

Fotografo Marcelo Skaf POst1Em pleno mar…
No mar as coisas são mais complexas um pouco, pois você precisa de três pontos. O primeiro é ser um bom mergulhador, segundo, um bom fotógrafo e, em terceiro, saber como se aproximar dos animais! A maior parte das imagens de animai,s quando comecei, eram natureza indo (perdia o tempo…pegava o bumbum do bicho), natureza ao longe (não conseguia me aproximar,  nem disfarçado de moita) e metade da natureza (bichos rápidos sempre estavam cortados). Por fim, e o mais importante, é o desafio de não ser ansioso. A natureza tem seu tempo e são os animais que se deixam fotografar, não somos nós que escolhemos o local, nem a hora, nem nada, nada. Chegue com alguns dias de antecedência, sinta o lugar, entenda a luz, tente entender os animais e deixe que eles se mostrem, tudo que descrevi acima, sobre desconforto, torna-se secundário, e a experiência de fotografar a natureza passa a fazer parte de sua alma. Você se transforma.

Qual câmera e equipamentos você usa para o trabalho no fundo mar?
Uso uma câmera profissional de fora d’agua numa caixa estanque. Atualmente uma Canon 5D Mark III com caixa estanque Aquática. Sempre carrego um par de strobos. As lentes variam em função do tamanho dos animais que estou trabalhando, desde uma de 17mm para grandes baleias ate a de 100mm, macro, para pequenos animais.

Seu livro Pelos Mares do Mundo é também uma história sobre várias de suas paixões – mergulho, mar, vida marinha. Qual o significado da obra nessa vida de aventura e de pesquisas?
É a realização de um sonho, são mais de 20 anos fotografando e mergulhando que culminaram na publicação do livro. Significa o trabalho de toda minha vida até esse momento.

O livro tem 130 fotos – como foi a escolha delas para a edição? E quantas imagens, aproximadamente você tem no seu portfólio?
Tenho mais de 20 mil digitais e 30 mil em películas (cromos). A escolha foi bastante difícil, o critério foi ter cores, formas e texturas que pudessem despertar o interesse dos leitores.

Mamíferos e peixes raríssimos , como são identificadas essas espécies?
Sou oceanógrafo de formação, então tenho a base científica acadêmica, além de guias especializados, e publicações impressas de vida marinha. Os guias locais ajudam muito também.

“O mundo que margeia os oceanos está diretamente conectado à vida submarina” – fale um pouco sobre essa conexão?
A zona costeira (áreas mais ricas dos oceanos) e o mundo que margeia os oceanos (a área litorânea) têm uma relação direta. Se continuarmos impactando a zona costeira como estamos fazendo, a vida submarina corre sérios riscos de desaparecer ou diminuir muito. E nós, seres humanos, iremos pagar essa conta. A pesca, lazer e regulação do clima, por exemplo, são todos influenciados por ações que ocorrem no mar. O próprio oxigênio que respiramos vem dos oceanos. É um erro achar que a Amazônia é o pulmão do mundo. Correto seria associá-la ao ar condicionado do mundo.

Inúmeras expedições de mergulho, explorador dos cinco oceanos e dos mares do Caribe e do Mar Vermelho. Como é essa vida de tantas viagens. Qual o seu porto seguro?
As viagens são sempre muito prazerosas, apesar de difíceis e duras. Achar os animais nem sempre é fácil. Mas é o que gosto de faze. ‘Quanto pior, melhor’. As viagens ficaram mais difíceis com a chegada das minhas duas filhas, que hoje têm cinco e 1 ano. A saudade delas aperta de forma orgânica. Nunca havia sentido tanto amor. Hoje me limito a ficar fora no máximo 20 dias. Mas tento transformar a saudade em foco, pois precisamos conservar os oceanos (inclusive para elas), então penso estar ajudando um pouco esse processo, isso me dá tranquilidade para estar longe delas (um motivo que me preenche).

Tem o mar de algum dos muitos lugares que esteve que o fascinou especialmente?
Galápagos e Papua Nova Guine. O primeiro para grandes animais (em especial tubarões) e o segundo pela biodiversidade!

 

Fotografo Marcelo Skaf POst LivroPelos Mares do Mundo

Com 202 páginas e 130 imagens, Pelos Mares do Mundo, de Marcelo Skaf, pela Editora Batel, apresenta paisagens de várias regiões do planeta visitadas pelo fotógrafo convidado do Por A mais B. Entre elas, Moçambique, África do Sul, Nova Zelândia, Mar Vermelho, Papua-Nova Guiné, Ilhas Canárias, Ilhas Oceânicas Brasileiras, Caribe, Antártida e Ártico. “Um livro de fotografia oferece uma experiência estética incomum às mídias massivas como a televisão, cinema e computador”, reflete. A edição retrata, com realidade e arte, as formas e cores do universo marinho. São paisagens submarinas, detalhes e texturas de seres marinhos – desde espantosas Jubartes até um cavalo-marinho pigmeu, de apenas 3 milímetros, focando as interações entre a paisagem dentro e fora d’água, e sobre como estes dois ambientes se relacionam entre si, a conexão entre o que está acima e abaixo da linha d’água.

 

 

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