Crianças protagonizam ensaios de Mari Merlim, que apaixonou o mundo com ‘Sou da Minha Infância’, o pequeno príncipe brasileiro; Fotógrafa Convidada

foto_post1_mari_merlinPor A mais B, Mari Merlim, Fotógrafa Convidada: “Meu desafio hoje é limpar cada vez mais minha fotografia, tirando ruídos, elementos desnecessários, exageros que pouco dizem. Enfim, falar o que quero com pouco”

Beth Barra

Crianças são as protagonistas dos ensaios de Mari Merlim. “Elas são autênticas e enérgicas”, diz a Fotógrafa Convidada do Por A mais B. Em 2015, ela apaixonou o país com a série ‘Sou da Minha Infância’, imagens lúdicas e libertárias de um pequeno príncipe brasileiro. O projeto envolveu suas passagens pelas dunas das praias de Joaquina e do Campeche, em  Florianópolis, cidade onde vive há três anos. “Elas me faziam lembrar muito o deserto do pequeno príncipe. Assim, veio a inspiração de representá-lo ali”. A belíssima obra cruzou o oceano entre março e abril – com exposições no Instituto Cultural Alter Brasilis (Paris) e em Saint-Maurice-de-Reméns, castelo de infância de Saint-Exupéry.

Além das inspirações de o Pequeno Príncipe, Mari Merlim buscou também outros elementos para o ensaio em Piloto de Guerra, livro do escritor e aviador, que desapareceu em um acidente de avião, em 1944, e na pesquisa de resgate histórico do autor, realizada por Monica Cristina Corrêa. A fotógrafa ressignificou o personagem em belas imagens pelas dunas de Florianópolis, onde o próprio Saint-Exupéry teria passado enquanto piloto.

No próximo mês, ‘Je suis de mon enfance’ estará na Cité del Espace, em Toulouse, França, e pode ser visto até 30 de julho no Shopping Iguatemi Florianópolis. Mari Merlim, 25 anos, seis de profissão, antes de começar a faculdade de Cinema passou um ano trabalhando com projetos sociais em uma ONG em Brasília e no Rio de Janeiro. Nesse período, retratou o dia-a-dia do projeto para as pessoas que a acompanhavam. “Me vi desejando fazer da fotografia mais do que um registro documental, mas torná-la um ponto de vista. Desejei não necessitar de legendas para descrever meus relatórios, ter imagens que contassem a história por si próprias. Quando voltei para São Paulo decidi ingressar num curso de fotografia”.

‘Sou da Minhas Infância’ apresentou a fotógrafa ao mundo, enquanto Mari Merlim trabalhava em outros projetos, como Ensaio dos Sonhos, que começou quase amadoramente em 2010 e há três anos está sendo desenvolvido buscando narrativas, conexões, significados – “colhendo a história da criança junto com as imagens dela”. Desejos e mundos imaginados por meninas e meninas são transformados em ensaios: “O objetivo é tecer um retrato feito de diversos fios; cada fio é algo que ela valoriza”, explica.

“Meu desafio hoje é limpar cada vez mais minha fotografia, tirando ruídos, elementos desnecessários, exageros que pouco dizem. Enfim, falar o que quero com pouco”, revela Mari Merlim. Ela fez recentemente seu primeiro ensaio em preto e branco – “movimentos corpóreos da infância, quase como uma dança, fotografando crianças na Itália, França e Suíça em seus momentos lúdicos e naturais. O lançamento será em julho, junto com a revista Primi Stilli”.

foto_post2a_mari_merlinPor A mais B, Mari Merlim, Fotógrafa Convidada: Imagem de ‘Sou da Minha infância’; com Monica Cristina Corrêa – pesquisadora e tradutora no Brasil das obras de Saint-Exupéry; ao lado de François D’Agay, sobrinho do escritor e cena da exposição no castelo de Saint-Maurice-de-Reméns (Fotos: arquivo)

 

TRÊS POR QUATRO

♥ Câmeras preferidas – “Canon 5D Mark III e Canon 6D”
♥ Viver em Florianópolis – “Uma capital com clima de interior. O lugar me cativa pelo acolhimento de seu povo e pela natureza que envolve a cidade”
♥ Memória da infância – “Subir no pé de manga na cidade de meus avós, em Paranavaí, no Paraná. Passava as férias de dezembro lá. No quintal havia todo tipo de árvore frutífera, e em dezembro, especialmente, as mangas eram tão abundantes que inundavam a casa com seu aroma doce”
♥ Uma emoção – “Apresentar o ensaio na própria casa de infância de Saint-Exupéry foi indescritível. É como sentir-se parte do legado desse homem, que deixou uma mensagem tão humana e solidária para o mundo”
♥ Rotina profissional – “Boa parte do processo de um ensaio acontece de forma mais reclusa, quando faço a pesquisa de referências, a construção da narrativa e abordagem do tema. Nesse momento, trabalho no meu escritório pessoal.
♥ Inspirações – “Gosto de estar em contato com os movimentos culturais da cidade, os projetos de outros artistas, é onde encontro reflexões e provocações para meus projetos também”

 

foto_post3_mari_merlin“Na fotografia construo uma visão desse mundo em movimento”, você anotou em seu site. Como une técnica e emoção nos trabalhos?
O exercício de clicar constantemente, e quando digo clicar, falo da simples ação de sair para fotografar sem muita intencionalidade, tem me trazido uma consciência cada vez mais clara daquilo que desejo na minha imagem. Os elementos técnicos podem e devem representar uma opinião. Por exemplo, trabalho muito com contraluz e com lentes grande angulares. O contraluz não revela tudo, mas destaca algumas zonas da imagem. A grande angular, no entanto, escancara a realidade a sua volta. A relação de revelar/esconder que esses dois elementos me permitem desenvolver são basicamente a forma como trabalho na criação da fotografia. A pós-produção e as cores também ajudam a comunicar. Meu desafio hoje é limpar cada vez mais minha fotografia, tirando ruídos, elementos desnecessários, exageros que pouco dizem. Enfim, falar o que quero com pouco.

Delícias e desafios de fotografar crianças
Elas são autênticas e enérgicas. É mais fácil alcançar o verdadeiro olhar delas do que de uma pessoa adulta, que vem cheia de máscaras. Diante da câmera, elas estão preocupadas em expressar seus movimentos e sua performance de forma sincera. O desafio é compreender seus anseios, sem banalizá-los. Valorizar a opinião infantil, perceber que se está diante de outro indivíduo completo, que tem seus próprios sonhos, suas próprias vontades. A criança não é adulto pela metade, mas ser humano por inteiro. E muitas vezes, tratamos as crianças como se elas não fossem suficientes, ou não fossem capazes de compreender sentimentos, situações complexas.

Ensaio dos Sonhos revela desejos e mundos imaginados pela criança. Como é o início de cada trabalho e esse mergulho na infância?
Faço uma entrevista com a criança para entender o que mais lhe chama a atenção na vida. Pergunto desde sua cor preferida até sobre super poderes, rs. A conversa é uma forma de fazê-la construir esse cenário para que eu possa visualizá-lo. Depois, pesquisamos referências e construímos o ensaio de uma forma mais conexa, com elementos estéticos que se encaixem, para que não se torne um emaranhado intraduzível. O objetivo é tecer um retrato feito de diversos fios. Cada fio é algo que a criança valoriza.

Fale um pouco do projeto, inspirações, pesquisas de ‘Sou da Minha Infância’
Quando me mudei para Florianópolis, há três anos, passava sempre pelas dunas da região de Joaquina/Campeche e elas me faziam lembrar muito o deserto que o pequeno príncipe cita em seu livro. Assim, veio a inspiração de representá-lo ali. Mais tarde, ao longo das pesquisas, descobrimos que o próprio  Antoine de Saint-Exupéry tinha uma passagem memorável pela região de Florianópolis, quando era piloto de correios aéreo. Por isso, uma das principais avenidas de Florianópolis se chama Avenida Pequeno Príncipe. Imaginar os passos de Saint-Exupéry no lugar onde produzimos deixou nosso ensaio ainda mais simbólico e especial.

foto_post4_mari_merlinComo encontrou seu ‘pequeno príncipe’?
Quando procuramos o protagonista do ensaio não pedimos um pré-requisito físico, e sim, uma criança com uma atitude libertadora.
Buscamos uma criança brasileira que fosse capaz de encarnar o principezinho de Saint-Exupéry com naturalidade. Foi assim que achamos o Artur, em uma seleção de crianças que foi organizada pela internet, dentro de nossa página do Facebook e algumas entrevistas.

O Pequeno Príncipe foi também um livro da sua infância, como essa obra mexe com seu imaginário?
Sim, além de ler desde criança, O Pequeno Príncipe tem sido uma referência literária para guiar minha essência enquanto fotógrafa. Ver o não óbvio, valorizar a simplicidade, questionar o mundo. Tudo isso faz parte de minha profissão, o que faz desse livro uma obra muito representativa na minha vida.

O circuito francês da mostra envolve Monica Cristina Corrêa, presidente da AMAB, pesquisadora e tradutora de obras do autor no Brasil. Como foi essa conexão?
Monica conheceu o ensaio assim que o lançamos, em 2015. Na época, ela traduzia uma nova edição de “O Pequeno Príncipe” para a Companhia das Letras, e me convidou para fazer o lançamento do livro juntamente com a exposição das fotografias. Foi a primeira delas. A partir daí, começamos a trabalhar juntas, pois ela lidera uma grande pesquisa de memória de Saint-Exupéry no Brasil e todo seu legado. A AMAB, associação que ela preside, intermediou nossos contatos na França para que as exposições acontecessem e é nossa curadora.

Site de Mari Merlim – www.marimerlim.com.br

#poramaisb – #bethbarra
beth.poramaisb@gmail.com
bethbarramoda@gmail.com

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Fotógrafo Convidado

Por A mais B, Mari Merlim, Fotógrafa Convidada: Ensaio 'Sou da Minha Infância', inspirado em Saint-Exupéry
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