João Marcos Rosa, fotógrafo convidado do Por A mais B, um pensador de histórias e suas imagens da natureza

Por A mais B, João Marcos Rosa, fotógrafo convidado: “me encontro na fotografia. Eu vejo o que eu tenho de melhor por meio dela”

Maria Teresa Leal (*)

A coisa mais linda do mundo para o fotógrafo e jornalista João Marcos Rosa é chegar perto de um bicho e registrá-lo, sem que este se sinta ameaçado. “Significa que consegui seu respeito”, diz ele. Isso aconteceu várias vezes durante a produção de seu mais recente livro, “Arara-azul – Carajás”, prestes a sair do forno. A obra traz imagens inéditas da espécie, exuberância de cores, paisagens e exigiu escalada de árvores e uso de câmeras remotas. Vem sendo engendrada desde 2012, e é também uma forma de coroar o fato de a espécie ter saído da lista vermelha das aves ameaçadas de extinção.

Experiente fotógrafo de natureza, João, de 36 anos, teve seu primeiro livro publicado em 2010. “Harpia”, com textos assinados por biólogos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da CRAX – Sociedade para Pesquisa e Manejo de Vida Silvestre. A obra surgiu a partir da constatação de que não havia um trabalho profundo sobre esta que é a maior ave de rapina das Américas, também conhecida como Gavião-Real. Arredia, e com facilidade para camuflar-se, é um desafio até para os fotógrafos especializados. “É como a onça. A gente sabe que existe, que ela está lá. Mas quase nunca a vê”.

Por isso, “Harpia” foi tão bem recebido pela comunidade acadêmica e amantes da natureza. João se envolveu tanto, durante a produção, que tornou-se membro do Programa de Conservação do Gavião-Real e, mais tarde, assumiu a área de comunicação do projeto. Além disso, o livro, de 144 páginas e 90 fotos, lhe deu credencial para fazer trabalhos importantes, como o documentário na Ilha da Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo, reduto de mais de duas mil jararacas-ilhôas e reportagens especiais sobre as ariranhas e as araras-azuis-de-lear, um dos psitacídeos mais ameaçados do mundo. Depois de “Arara-Azul-Carajás”, devem vir outros livros. A cabeça de João não para. Sua intenção é compor uma coletânea sobre animais – algo que cruze a barreira do mundo acadêmico e entre na seara dos leitores comuns. Os exemplares devem ser distribuídos a universidades, escolas, institutos de pesquisa e órgãos públicos.

 

Aos 15 anos, a primeira câmera

Criado em Nova Lima, João sempre gostou de natureza e fotografia. Foi natural que unisse as duas coisas. Tinha só 15 anos quando descobriu na biblioteca do avô, seu quase homônimo – João Rosa – vários livros sobre a arte que pedia olhar atento, luz e sensibilidade. Sentiu-se, imediatamente, fascinado. Percebendo seu interesse, o avô o presenteou com a câmera que tinha em casa: uma Olympus Trip, “pequena, mas estilosa”. O menino a experimentou durante vários dias, mas logo percebeu que o equipamento tinha poucos recursos. Começou, então, a economizar o dinheiro que conseguia, com o pai e o avô, em troca de pequenos trabalhos.

Não demorou a adquirir uma Zenith, que era a opção de câmera profissional mais barata do mercado. As expedições nas pescarias com seu pai ao rio Pandeiros, um dos afluentes do São Francisco, no Norte de Minas, e os passeios de bicicleta com os amigos na Serra do Cipó, eram oportunidades que ele não perdia para experimentar ângulos e enquadramentos. Mas revelado o filme, a turma ficava na bronca: nenhuma foto da galera. João só mirava paisagens, flores e bichos. “Era instintivo. Fui vendo que gostava muito daquilo. Na hora do vestibular, fiquei entre a Biologia e o Jornalismo. Acabei escolhendo o Jornalismo por achar que me facilitaria o acesso à fotografia”.

 

O Encontro com Araquém

Logo depois de se formar em 2001, João passou uma temporada no Rio de Janeiro. Um dia, inscreveu-se numa oficina de fotografia, em Paraty, ministrada por Araquém Alcântara, um dos mais respeitados fotógrafos brasileiros de natureza. O curso durou um final de semana e, como choveu muito, eles tiveram tempo para prosear. Descobriram tantas coisas em comum que, ao final, João foi convidado para trabalhar como assistente dele em São Paulo. Ficou dois anos às voltas com a produção de projetos, a organização do acervo e viagens com o mestre. Aprendeu muito sobre o comportamento do fotógrafo de natureza, os equipamentos e as estratégias necessárias. “Estar com Araquém em campo, conversar; viver e respirar fotografia foi um grande aprendizado. Digo que foi meu mestrado”.

 

O Rumo Certo

No final de 2003, ele inscreveu-se no Curso Abril de Jornalismo e foi aprovado. Durante os três meses da oficina, aproximou-se da equipe da National Geographic Brasil, em especial do editor Ronaldo Ribeiro, que ele já conhecia da época em que trabalhava com Araquém. Por sorte, tinha em mãos um trabalho que havia feito sobre bioluminescência no Parque Nacional das Emas, em Goiás, e aproveitou para mostrar. Ronaldo adorou. Além de publicada na edição brasileira, a reportagem foi comprada pelas edições alemã e americana. “Vi que estava no caminho certo e entrei de cabeça”, conta.

João foi percebendo as nuances da National Geographic e propondo novas pautas. Usou e abusou da facilidade para pensar histórias. Em março de 2004, publicou duas matérias que ele próprio escreveu e fotografou, uma delas era a da bioluminescência. Hoje, já são mais de 20 reportagens publicadas pela revista, mundialmente respeitada, e outras tantas para a alemã GEO, a austríaca Terra Mater e a inglesa BBC Wildlife. “Quando você tem alguma coisa para mostrar, fica mais fácil do que vender um portifólio ou currículo”, ensina.

É comum João ouvir de estudantes ou fotógrafos em início de carreira: como faço para ‘virar’ colaborador da National Geographic? Ele acha graça. “Não é assim, né? É um processo, uma construção. Implica desenvolver trabalhos que tenham o peso que a revista precisa”. Foi apostando nesta tendência – a de que as Redações estão à espera de boas propostas que casem bem com suas linhas editoriais – que João encontrou seu espaço.

A sonhada foto

Por pura persistência, em 2012, João conseguiu uma das imagens mais importantes de seus 15 anos de carreira. Ele acompanhava uma equipe de pesquisadores a uma reserva no Mato Grosso, onde havia um ninho de harpia. Seu livro sobre a ave já havia estava publicado, mas havia uma foto que ele não tinha conseguido fazer: a da imponente ave carregando uma presa em suas garras. Como trata-se de um bicho que caça animais grandes como macacos e preguiças, a ideia de ter este belo e raro registro era recorrente. Mas, ele sabia que não seria fácil. As harpias são animais velozes e é difícil vê-los chegando.

Foto Post Detalhe  João Marcos RosaNaquele dia, parte da equipe já havia ido embora quando o biólogo que o acompanhava viu uma harpia, ao longe. Ele pegou o binóculo e constatou que ela tinha alguma coisa no bico. Com batimentos cardíacos acelerados, João mirou sua câmera, puxou a imagem no zoom e confirmou: ela carregava algo, só não dava para ver o quê”. A partir daí foi uma correria para posicionar-se e “adivinhar” qual trajeto a ave faria, considerando-se a localização do ninho.

Deu certo. O bicho de 2,5 metros de envergadura e até 1,2 metro de altura, passou bem na frente da sua câmera carregando um tatu-peba. João não quis nem olhar no visor. Soltou o corpo para relaxar, respirou fundo e sorriu, aliviado. Sabia que a imagem estava lá, depois de mais de oito anos de tentativas. Afinal, a sorte chegara. Ele e o biólogo Renato Soares comemoraram e foram para a pousada descansar. Só mais tarde, ele abriu a foto no computador. “Não digo que ficou perfeita, porque sou insaciável. Mas me orgulho de ter tido capacidade técnica e frieza para fazer o registro. A sorte vem de tanto a gente tentar”. (No jogo de imagens, a foto da harpia em pleno vôo carregando um tatu-peba)

A Nitro

Além da credibilidade conquistada internacionalmente, João é sócio, desde 2005, da Nitro Imagens, agência composta por outros quatro profissionais: os fotógrafos Marcus Desimoni, Leo Drumond e Bruno Magalhães e pelo jornalista Gustavo Nolasco. Juntos, eles desenvolvem bem-sucedidos projetos autorais, como “Moradores”, “Os Chicos” (vencedor do prêmio Jabuti de “Melhor Livro de Fotografia em 2012”) e o filme “O Dia do Galo” (Vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes em 2015). “Somos meio polivalentes. Cada um tem sua especialidade, mas todo mundo participa de tudo e sempre aprendemos uns com os outros”.

João se atualiza assistindo documentários e lendo, atentamente, as revistas para as quais trabalha. “Não tem um mico maior do que você propor uma pauta que já foi feita. É até um desrespeito com a publicação”. Um certo pavor de altura já foi seu grande desafio, hoje, não mais… Difícil mesmo é ficar longe – às vezes 15 ou 20 dias – do rebento Benjamin, de dois anos, e da esposa, a jornalista Ana Paula Carvalhais. Mas João não tem do que reclamar: “me encontro na fotografia. Eu vejo o que eu tenho de melhor por meio dela”.

 

Outros trabalhos e prêmios

 

Além de ser o coordenador editorial do livro Fauna de Carajás (Nitro Editorial), João Marcos Rosa tem imagens publicadas nos livros Facing Extinction (Birdlife/T&AD poiser), Mata Atlântica (MMA), Biodiversidade em Minas Gerais (Biodiversitas), Árvores Floridas (Itaú/BBA), Biota (UNESP) entre outros.

 

Prêmios: World Bird Photo Contest, Itaú/BBA, New Holland Fotojornalismo, Avistar, SESC, Sebrae.
Suas fotografias ilustram campanhas de conservação para Greenpeace, UNESCO, IBAMA e ICMBio.

 

Em 2010, as imagens de “Harpias” foram expostas na Câmara dos Deputados, em Brasília, e o trabalho “Pássaros Brasileiros”, no Weltvogelpark em Walsrode, na Alemanha.

 

Em 2008, o ensaio “Mormaço na Floresta” foi exposto na Galeria dos Povos Indígenas, em Brasília/DF.

 

Em 2012, ele levou para a “Fotogalería a Céu Aberto”, em Montevidéu, a exposição “Territórios e Encontros” com imagens de seus documentários sobre a fauna brasileira.

 

Participou de diversas exposições coletivas como “Itatiaia 70 anos”(SESC Pompéia/SP, 2007), “Habitat (II Festival Foto em Pauta Tiradentes, 2012), National Geographic Brasil (Shopping Iguatemi, 2013), Natureza do Fotógrafo (Festival Indaiatuba Sustentável, 2014 e Festival Fotógrafos em Ouro Preto) e Weltbilder (Terra Mater, Salzburg, 2014).

 

 

(*) A jornalista Maria Teresa Leal é colaboradora ‘hot people’ do Por A mais B

Leia e veja mais: Fotógrafo Convidado, Por A mais B

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Por A mais B, João Marcos Rosa, fotógrafo convidado: “me encontro na fotografia. Eu vejo o que eu tenho de melhor por meio dela”
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