Márcio Madeira, o grande nome da fotografia de moda; imagens feitas de arte e técnica

Por A mais B, Márcio Madeira, fotógrafo convidado: Desfile Alexander McQueen, Paris, março de 2003

Beth Barra

Ele queria ser bombeiro quando criança – “mas depois mudei para Oficial de Marinha, o uniforme era mais bonito e ainda por cima tinha uma espada linda” – conta Márcio Madeira, fotógrafo convidado do Por A mais B. Nessa entrevista, feita por email (Belo Horizonte/Paris), o mais importante profissional brasileiro da fotografia de moda, pioneiro nas coberturas de prê-à-porter mundial, iniciadas em março de 1978,  na capital francesa, mantém seu estilo direto, objetivo, lúcido e crítico. “A imprensa de moda no Brasil não tem opinião própria e morre de medo de perder as mordomias. Glamour, celebridades, blogueiras (estas, por definição, não têm formação nenhuma) não geram business para as marcas”, reafirmou, ao avaliar a formatação das semanas de moda nacionais. Primeiro nome a cobrir o Minas Trend, considera que o modelo da Fiemg, com desfiles e feira de negócios, “é o que falta no SPFW e faltou no Rio: realismo e modéstia”.

Marcio Madeira Post internoMárcio Madeira é reconhecido pela barba,  chapéu Panamá,  camisas com estampas – no Brasil, floridas havaianas – “perfeitas para o país tropical”; xadrez, prints de avião ou tubarões, além de modelos elegantes em tons escuros.  Ele parece se divertir com isso, ao explicar que acha camiseta um horror, e suas camisas, com bolso, dão para guardar o celular. Mais? “Este pessoal que enfia as pernas e iPhones na frente das modelos são insuportáveis, e internacionais, acho que me perseguem pelo mundo”.

Talento, técnica, criatividade são a tríade do trabalho de Márcio Madeira, 64 anos, aquariano, nascido no Rio, criado no Flamengo, em um tempo de Garotas de Ipanema, barquinhos e violões. Suas imagens de desfiles, e são milhares em mais de quatro décadas, vão além dos looks inteiros das passarelas.  Considerado um dos melhores profissionais de moda do mundo,  ele capta em suas imagens expressões, olhares, gestos, detalhes: informação e arte.  Fundador da Zeppelin, criada em 1991,  sede em  Paris,  esse cidadão do mundo  coleciona  arte e antiguidades e, na conversa com o Por A mais B,  revisitou memórias de infância, o início da carreira, falou um pouco da vida em Paris e da indústria da moda. A Nikon é sua  máquina preferida, cobre 800 desfiles a cada temporada e, sim, a célebre maleta realmente abriga 40 quilos de equipamentos.  (Nas três galerias,  34 fotos históricas de Márcio Madeira, com curadoria dele).

 

 

“Vivi uma infância e adolescência maravilhosas, sem nenhum trauma em um Rio de Janeiro sem violência e drogas, cheio de Garotas de Ipanema, barquinhos e violões”

 

Rio, anos 70. Foi o início ‘oficial’ de seu trabalho na fotografia? Quando nasceu e a meninice do fotógrafo Márcio Madeira?
Nasci em 17 de fevereiro de 1952, no Rio de Janeiro, sou, portanto, Aquário, e tenho apenas 64 aninhos. Filho de uma funcionária do INPS com um caixa de banco, ou seja, classe média baixa. Quando menino queria ser bombeiro, mas depois mudei para Oficial de Marinha (o uniforme era mais bonito e ainda por cima tinha uma espada linda…).  Cresci no bairro do Flamengo (onde tenho um apartamento) a 50 metros da praia em frente ao Pão de Açúcar. Vivi uma infância e adolescência maravilhosas, sem nenhum trauma em um Rio de Janeiro sem violência e drogas, cheio de Garotas de Ipanema, barquinhos e violões. Nas férias minha mãe me “despachava” por quase três meses para Varginha, que ainda não tinha ET, ou para Araraquara, em São Paulo, onde tinha uma multidão de primos-irmãos, fazendas com cavalos e tudo mais para brincar. Aos sete anos minha mãe me comprou uma câmera “caixote” para eu parar de mexer numa Carl Zeiss do meu pai (que ele não sabia nem usar e eu sim). Comecei e não parei.

O antes da fotografia e o início da profissão?
Aos 16/17 anos já tinha um nível de fotógrafo amador bem avançado, fazia laboratório no banheiro de casa, impedindo a família toda de usá-lo, o que gerava certos conflitos. Aos 18 minha namorada ficou grávida, casamos e eu me vi obrigado a trabalhar – após algumas tentativas frustradas como vendedor de fundos de investimento, e já com uma filha, fiz uma foto dela linda em preto e branco, ampliei no formato 50×60, que na época se chamava “pôster” (não sei de onde vem este termo até hoje…). As mães das amiguinhas da minha filha adoraram e queriam igual. Pronto eu estava lançado no business da fotografia. Com o dinheiro que ganhei comprei um equipamento Nikon, novo e bacana, e pude aposentar a Minolta SRT-101 (tipo vintage, já na época) que troquei por uma guitarra elétrica e amplificador que fiz meu pai comprar pra mim (coitado…).

 

“Hoje pode ser diferente,  mas na época ninguém dizia ‘quando eu crescer vou ser fotógrafo de desfile’. Isso nem existia, pois, antes de 1978, só existia desfiles de Alta-Costura, onde fotógrafos não eram bem-vindos, era a paranoia das cópias. Depois que o Kenzo fez um ou dois mega-shows é que se decidiu fazer um evento unificado para o Pret-à-Porter, em março de 1978”

 

Você vive em Paris, é carioca, trabalha em uma área que as pessoas fantasiam – como transita entre esses mundos?
Cheguei a Paris em outubro de 1978, nesta época já era fotógrafo de moda, fazia editoriais, catálogos, publicidades e desfiles. Sempre procurei melhorar o trabalho, tanto tecnicamente como artisticamente. Foram milhares de fotos publicadas no mundo todo, capas, catálogos e cartazes que colocaram a foto de desfile no topo; a coisa veio naturalmente. Sou fotógrafo profissional há 45 anos, estou na moda 41 anos deles. Esta coisa de “fantasia” é uma novidade recente. Hoje em dia tem mais fotógrafos fora do que dentro dos desfiles. É a maioria dos “fantasiados”, não têm nem convite para ver os desfiles. Vão lá só pra serem fotografados…

Foi em 1995 que criou com Don Ashby o site firstview.com? Quando fundou a Zeppelin?
Até 1991 trabalhei como freelance, foi quando decidi fundar a Zeppelin, afinal, Paris era a capital das maiores agências fotográficas do mundo e da moda e não tinha uma agência especializada. Não tenho sócios na Zeppelin e em cima dela montei a firstVIEW com o Don. Já colaborávamos juntos antes, quando em 1995 estávamos em Nova York e ele, conhecendo as minhas aptidões com informática, me levou para conversar com um amigo, que tinha aberto uma empresa provedora de internet (acho que isto nem existe mais), e estava querendo fazer algo com moda para ocupar a namorada. Eu o ouvi por três minutos e disse…”simples vamos fazer algo novo, vamos botar todos os desfiles on-line”. Estava nata a firstVIEW, que foi copiada pela Condé Nast com o Style.com e muitos outros. As duas empresas eram interligadas,  chegamos a ter 12 funcionários fixos e 40 no momento das coleções, com escritórios em Paris e Nova York. Me separei da firstVIEW em agosto de 2013, pois não estava de acordo com Don na maneira de se conduzir a empresa. Chegamos a um impasse e eu preferi me retirar.

Além da cobertura dos desfiles de Nova York, Londres, Paris, Milão, mantém o SPFW ou outras semanas, como a de Madrid?
Temos Berlim, Barcelona, Tóquio e etc. Mas estamos reduzindo drasticamente a cobertura de países onde a moda é menos significativa; o mercado não está mais pra peixe.

Campanhas e editorais de moda ou desfiles?
Editorial é muito chato de fazer. Você tem que ter a modelo certa, a meteorologia perfeita, você depende de maquiador, cabeleireiro e produção. Quando você tem a super model, ou chove, ou a roupa é horrível, quando a roupa é linda a modelo não é. E ainda pode chover etc e tal. Além de exigir um trabalho de relações públicas enorme, tem que ficar amiguinho da editora. O trabalho é mais é mal pago e as revistas estão desaparecendo. Dizem que é bom para o portfólio. O que não é verdade. Você não tem mais trabalho “comercial” por causa disto. Você quer aquela foto da Jerry Hall com aquele vestido deslumbrante do Thierry Mugler? Eu tenho, custa isto, se pagar leva, se eu não for com a tua cara não leva. Estou em outra posição. No editorial você depende de muita gente. E gente é o seguinte….

Marcio Madeira Post 10Suas imagens de desfiles revelam expressões, olhares, detalhes. Provocam o olhar, são também autorais?
Os detalhes são importantes, pois quando você vai a um desfile não repara necessariamente no salto do sapato ou está longe demais para ver a textura do tecido; além do mais como não são “rígidas ” permitem mais liberdade e podem ser mais “autorais” como você diz….

Entre as características de suas fotos de passarela está clicar modelos com o corpo reto, braços ao longo do corpo. Hoje esse padrão, que você estabeleceu, é seguido por centenas de profissionais. Há novidades na fotografia de desfiles?
Você esqueceu do pé no chão, o que é super difícil de se fazer. A única novidade é que os desfiles perdem cada vez mais o interesse, tem cada vez mais e ficou muito difícil de “digerir” toda esta quantidade de informação. Com a rapidez da internet, um desfile “envelhece” em três dias, a mídia impressa está acabando e a internet não quer pagar foto.

O que mudou no trabalho com as câmeras digitais? Você fazia o laboratório de suas imagens? Estamos na era do instantâneo em detrimento da imagem de qualidade com as redes sociais?
Nós aqui na Zeppelin revelávamos nós mesmo os filmes por uma questão de custo e tempo. Toda preocupação que tive nos 38 anos que estou cobrindo desfiles de melhorar a qualidade das fotos foi para o lixo. Hoje o critério é mandar uma porcaria rápido. E de graça nos dois sentidos da palavra “graça”…

 

“Este pessoal que enfia as pernas e iPhones na frente das modelos são insuportáveis, e são internacionais, acho que me perseguem pelo mundo”

 

Em 2015, sua afirmação ao site Hit repercutiu muito:  “O sistema brasileiro das semanas de moda está falindo”. O Fashion Rio acabou, o São Paulo Fashion Week já não tem o mesmo glamour. E  o jornalismo de moda? 
Esta afirmação foi o óbvio ululante que ninguém teve a coragem de dizer. A imprensa de moda no Brasil não tem opinião própria e morre de medo de perder as mordomias. Glamour, celebridades, blogueiras (estas, por definição, não têm formação nenhuma) não geram business para as marcas. O Minas Trend sim. As blogueiras podem gerar business imediato no varejo, então decidiu-se fazer o SPFW só para elas. Não se consultou a mídia, as marcas ou se verificou se a estrutura industrial suporta o tranco. Ninguém contesta ou bota o assunto em discussão. Se não der certo não é um problema, inventa-se outra desculpa e se volta pra trás. Ninguém fala nada mesmo…

Belo Horizonte tem o Minas Trend Preview (Fiemg). Com um pequeno line up de desfiles, feira de negócios,  expositores, palestras e workshops.  Falta esse business ao SPFW?
Conheço muito bem o Minas Trend. Fui o primeiro fotógrafo do evento e lá trabalhei por quatro anos. A resposta para sua pergunta é esta: Sim é o que falta no SPFW e faltou no Rio: realismo e modéstia…

As labels, quase todas com gestão de holdings, estão há algum tempo trocando diretores de estilo, redirecionando as marcas. Nomes como Galliano, Alexander McQueen, Lacroix eram autorais. A criação de moda transformou-se em estratégias de consumo?
Estas grandes marcas atualmente não sabem o que fazer. Por exemplo, a Luis Vuitton fatura por ano 6 bilhões de euros. Já a Zara fatura 36 bilhões ou seja seis vezes mais, e não tem estilista vedete que custa milhões. Eles têm um departamento de “bureau de style” com uma garotada diplomada fazendo análises de tendência e comportamento, com uma estratégica de marketing bem definida e um suporte industrial eficaz e rápido. A partir da decisão de se fazer um modelo, tomada na sede da Zara, na Espanha, apenas nove dias o modelo se encontra à venda em todas as 2143 Zaras do mundo. A logística é a alma do negócio hoje em dia.

Por A mais B, Márcio Madeira, fotógrafo convidado: Yves Saint Laurent e Laeticia Casta, YSL, Haute Couture, spring/summer, 1999
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Sua presença nos desfiles é notória, as camisas com estampa, a barba, às vezes o chapéu Panamá. Convidados da primeira fila continuam cruzando as pernas e interferindo no seu trabalho? Isso é mais no Brasil? (Detalhe – você é fluente em quantas línguas e mora em Paris há quanto tempo?)
Falo apenas cinco línguas, moro em Paris há uns 36 anos. Este pessoal que enfia as pernas e iPhones na frente das modelos são insuportáveis, e são internacionais, acho que me perseguem pelo mundo. Acho camiseta um horror, por isso gosto de camisa de botão com bolso para colocar o celular e um país tropical como o Brasil as floridas havaianas são perfeitas.

Você é um frequentador de brocantes, os mercados de pulgas. Apreciador de arte e antiguidades, quais locais gosta de visitar em Paris e o que costuma comprar?
Paris tem vários mercados das pulgas e umas centenas de feiras ocasionais. Bem como leilões. Prefiro objetos art-déco, mas me interesso por tudo….

Dá para ir ao Rio fora das temporadas de moda?
Tenho um apartamento no Flamengo, onde tenho o prazer de receber os amigos, já cheguei a ir ao Rio cinco vezes por ano, atualmente aproveito os eventos de moda no Brasil para dar uma “esticada” no Rio, só duas vezes por ano…

Um pouco da Paris…
Tenho um loft em Paris, na rue Montorgueil, que era uma rua do antigo mercado do Les Halles, onde se manteve um pouco a tradição. Tem centenas de lojas de iguarias e fica em frente ao megashopping Fórum Des Halles. Se o planeta implodir, e só sobrar o meu bairro, vou viver otimamente.

 

#poramaib
beth.poramaib@gmail.com
bethbarramoda@gmail.com
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Por A mais B, Márcio Madeira, fotógrafo convidado: Jhon Galliano, fall/winter, 2004
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Por A mais B, Márcio Madeira, fotógrafo convidado: Zac Posen, fall/winter, NY, 2003
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