Formas arredondadas, solares e multicoloridas nos homens e mulheres de Gustavo Rosa

“Não acho graça em fazer retrato, a grande obra é a que você cria” (Foto: Reprodução)

Gustavo Rosa LivroBeth Barra

Gustavo Rosa, Alegria de Viver e Pintar (Capella Editorial), do historiador e crítico de arte João J. Spinelli foi lançado em 2 de dezembro de 2014 na Livraria Cultura, em São Paulo. O livro conta a trajetória de vida e arte de Gustavo Rosa, e é também uma homenagem ao pintor, escultor e gravador paulista, morto em 12 de novembro de 2013, após 14 anos lutando contra um mieloma duplo. Ele estava com 64 anos de idade e continuou trabalhando intensamente até sua morte, mas, pouco antes, despediu-se dos amigos em sua página no facebook – “Inquieto como sempre fui, resolvi flanar em outras plagas e parto no caminho da luz. Lá vou alçar voos que serão tão leves quanto os traços que risco em brancas telas, e tão vibrantes quanto as cores que transbordam da minha palheta”.

Por A mais B registra celebra o artista nos três anos de sua morte, com uma série de imagens de suas telas. Gustavo Rosa foi um criador instigante, com telas de coloridos suave ou intensos, homens e mulheres de formas arredondas, felizes, solares, palhaços, peixes, gatos…bichos. O traço cheio de graça era uma forma de driblar a ditadura da beleza – figuras quase burlescas se fazem belas, ternas, acolhedoras. Séries como Banhistas e Namorados são poéticas, divertidas – evidências do talento de um artista que tinha seu próprio código criativo, sem escolas, relatando esteticamente as incongruências da vida.

Em Eles, Gustavo Rosa pintou também seu autorretrato, enquanto seguia invadindo e reinventando o cotidiano com seus personagens/poemas. Ao longo da carreira, sua pintura, especialmente nos primeiros anos, inclui também, traços mais geométricos e racionais. Em várias entrevistas, explicou que o sofrimento e o enfrentamento da dor – falava da morte da irmã – o tornaram um criador com mais humor e cores. Antes disso, desenvolvia uma obra mais intelectual e racional: “após o falecimento de minha irmã, eu vi que a vida não pode ser levada tão a sério, comecei a arredondar as figuras, a brincar com as cores, com o humor; minhas obras ficaram mais despojadas, mais alegres, mais coloridas”, relatou à revista Fiap Tur Magazine.

Ele nasceu em São Paulo em 20 de dezembro de 1946. Deixou a carreira publicitária para se dedicar à arte – uma troca pela liberdade, sempre disse. Entre a primeira exposição na FAAP, em 1966 à participação em uma coletiva no Louvre, em 2009, em Paris, Gustavo Rosa acumulou prêmios, realizou trabalhos corporativos, estudou gravura com o norte-americano Rudy Pozzati, em 74, em São Paulo. E expôs em dezenas de galerias no Brasil e no mundo, além de lançar sua grife na loja Bloominngdale’s, Nova York, em 1995.

 


Gustavo2O Gustavo e o Rosa

Em outubro de 2013, pouco semanas antes de sua morte, fiz uma entrevista, por telefone, com Gustavo Rosa. Ele me atendeu de seu ateliê, em São Paulo. Pouco depois, em 12 de novembro daquele ano, o artista morreu. Esse bate-papo terminou não sendo publicado – mas todo jornalista guarda um bloco de anotações, especialmente de alguém que transformou a arte em um jeito de enfrentar a vida, as dores, a doença. Abaixo, alguns fragmentos e recortes da conversa com o genial criador, que além das telas, esculturas e gravuras, deixou sua arte ao alcance das mãos, com séries de suas icônicas e arredondadas figuras transpostas para lindos objetos de casa, de bandejas, canecas, xícaras, moringas a porta-copos e caixas organizadoras – uma linha em parceria com a Full Fite, batizada I Love You (foto), que se tornaram uma raridade (Beth Barra)

 

 

“Nunca tive um artista que me inspirasse. Admiro muito o Volpi. Desenvolvi um trabalho pessoal, como ele. Não tive grandes promoções no mundo intelectual; trabalho de dentro para fora”

 

“Sou colorista, não de uma maneira tímida, mas forte, eu abuso. Para isso o desenho é fundamental, poucos artistas hoje sabem desenhar”

 

“Gosto muito de algumas séries, como Banhistas, a praia é um tema recorrente no meu trabalho”

 

“Não tenho medo de tamanho, caminho muito rápido. Faço trabalhos pequenos, de 30X25, até telas de 2 metros X 1,80”

 

“Meu pai me mandou para trabalhar em uma agência, entre 66/67, acho. Mas escolhi a arte, que é livre”

 

“Não acho graça em fazer retrato, a grande obra é a que você cria”

 

“Não existe inspiração, existe trabalho; mas o artista, por sua natureza, é criativo. Na veia dele corre o sangue da arte, do criador.

 

“Tenho disciplina para trabalhar. Pinto apenas de dia, bebo vinho à noite, gosto de papear com os amigos”

 

#poramaisb
beth.poramaisb@gmail.com
bethbarramoda@gmail.com

 

Mais sobre o artista, suas obras e trajetórias no endereço www.gustavorosa.com.br

Por A mais B, celebrando Gustavo Rosa: "Sou colorista, não de uma maneira tímida, mas forte, eu abuso” - 20/12/1946 - 12/11/2013 (Reprodução)
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Categoria: Cult, Gente