Rita Lessa, a artista que conecta e harmoniza seus trabalhos, das telas e utilitários, à escrita pictórica

Por A mais B: “Sou uma artista de muitos leques, mas concebo meu trabalho como uma coisa só”, diz Rita Lessa (Foto de Marcelo Sant’Anna)

Rita Lessa Post DetalheBeth Barra

‘Meu coração inventou o amor, acabou o sossego’, a frase está espalhada em tapumes por Belo Horizonte. Pertence ao repertório da escrita pictórica de Rita Lessa, intervenções  poéticas em ruas de diferentes cidades, clareando espaços, às vezes, obscuros. A multiartista, que aos 16 anos conseguiu entrar para a Escola Guinard – “fiz também vários cursos livres, entre eles com Amilcar de Castro, fundamental na minha formação”, recebeu Por A mais B, no Buritis, onde mora e abriga o ateliê. No duplex, a sala já é prenúncio de arte com telas dela e outras do próprio Amilcar, Mônica Sartori, fotos emolduradas de Eugênio Sávio, entre outras.  Na mesa de jantar, em madeira maciça, a longa toalha representa duas folhas de bananeira, feita e pintada por ela à mão.

Rita Lessa começou a pintura  já adulta, mas parece que nasceu desenhista. E com gosto pela escrita, pequena, concisa, provocativa, amorosa. “O amor é uma escrita reincidente e nessas intervenções prefiro os tapumes, mesmo sabendo que não vão permanecer, embora use todo tipo de superfície,  incluindo guardanapos, folhas de cadernos”, explica, já andando pelo ateliê – um mundo de tintas, tecidos, pincéis, blocos, trabalhos prontos, outros iniciados. As portas envidraçadas do  terraço levam um pouco da paisagem para esse espaço criativoe aconchegante.

“Sou uma artista de muitos leques, mas concebo meu trabalho como uma coisa só”. Rita Lessa prefere telas de grandes proporções, sempre com tinta acrílica, e nunca dá nome às pinturas. “Orienta a leitura, não gosto”. Mas cada uma tem uma descrição atrás, com dimensão e técnica usada. No ateliê o mundo de cores, formas, desenhos e escritas ocupa quase todos os espaços,mas  com uma organização que pertence à artista. Ilustradora desde a adolescência, criou estampas para marcas como Maria Bonita, Yes Brazil, Frank e Amauri – pintava os tecidos inteiros, a estampa digital ainda não existia.

Rita Lessa série FrutasPost detalheAté hoje Rita Lessa pinta à mão,  diretamente no tecido, seus utilitários, como chama as séries de guardanapos, almofadas, toalhas, jogos de cama, aventais, produzidos com técnicas desenvolvidas por ela, que garantem durabilidade e que as cores não desbotem. Flores e frutas (ao lado, uma das séries, arquivo da artista) são os temas preferidos para essas peças/arte.

E há muitas conexões em seu trabalho, entre elas, com a moda, vestidos e kaftas de seda pintados à mão, bolsas e uma linha de camisetas que deixou corações fashionistas e apaixonados acelerados.

As t shirts começaram a ser divulgadas na página pessoal de Rita Lessa, no facebook. “Rede social não inventa ninguém, mas amplifica o trabalho”, diz ao explicar sua adesão por insistência de um dos filhos. Ao publicar imagens das camisetas, as encomendas não pararam – e a artista desenvolveu uma técnica de tingimento em três ou duas cores, diferente do tye die. Tons de rosado e nude, azul claro, verde, amarelo e o mix triplo de cores nos modelos em malha macia, fresca, com os pequenos desenhos ou símbolos – quatro no total, cada um pontuado por uma  frase encanto, como ‘alugo sala e quarto com aorta”.

 

As muitas vezes que viu Paris

A artist,a que enxerga e exercita a arte em diferentes focos, revela que os utilitários são uma referência em seu trabalho e também garantem uma vida que perimite novos voos. Não à toa. Em 2014, foi uma das cinco profissionais brasileiras convidadas pela Monoprix, uma das grandes e charmosas cadeias de lojas francesas, para criar uma linha exclusiva para casa. Rita Lessa desenvolveu pinturas para porcelanas, almofadas, jogos americanos, guardanapos e outros itens. “Eles também compraram minha série de frutas”, conta. Em Paris, no lançamento das coleções, ela pintou uma das vitrines da loja.

Não foi a primeira vez que viu Paris. Rita Lessa, com seu trabalho, encarna, também uma cidadão do mundo – Belo Horizonte é o porto seguro, de chegadas e partidas. Fora do Brasil,  a cidade-luz, para onde viaja sempre,  é sua preferida; por aqui, Ouro Preto e Trancoso, na Bahia. Com dois filhos crescidos, Esperança e Natan, – ela pode se dar ao prazer de viajar muito e levar seu trabalho para fora.

Entre aquelas emoções tão humanas dessa artista de cabelos claros, 1,60m de altura, 49 quilos e muita energia, alguns trabalhos ficaram no coração. Entre eles, o imenso tapete sacro, que consumiu dois anos de pesquisas  – do material, às tintas que garantissem vida longa quando exposto ao tempo. Em uma das festividades de Páscoa em Outro Preto, a obra cobriu parte do trajeto dos fiéis na procissão. A exposição, em 2015, na Semana de Design de Milão, com duas criações exclusivas, uma delas com pinturas estilizadas do Rio. Mais: “ler na Vogue francesa sobre meu trabalho logo depois do lançamento da coleção para a Monoprix”, revela, sem falsa modéstia, olhos brilhando.

Só que os olhos de Rita Lessa são assim brilhantes quando fala de arte, pintura, inspirações. E ela segue com novas pesquisas e projetos. Em 2016, inicia a exportação regular de seus trabalhos, especialmente os utilitários, com a orientação de uma consultoria da área. No ano passado, criou os bureaux de estamparia, fornecendo desenhos exclusivos. Sobre vida e arte, considera que seus múltiplos trabalhos se integram e se harmonizam – “sou também apaixonada pelas palavras”. E elas a levam para novas experiências e sentimentos, registrados pelo ensaio livre do fotógrafo Marcelo Sant’Anna, que pode ser batizado de ‘Rita Lessa, cores, formas e escrita’.

 

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Por A mais B: visita ao ateliê da multiartista Rita Lessa; ensaio do fotógrafo Marcelo Sant'Anna
Categoria: Cult, Gente