Criações autorais de uma nova e pensante geração no Fumec Forma Moda

Coleção Memuh, da jovem designer Ana Duarte, uma das criadoras da marca de acessórios ANADU (Foto: Diego Ruahn)

Beth Barra

Novos estilistas e designers chegam ao mercado com o FUMEC Forma Moda. A 22ª edição, com apresentação de 24 minicoleções, acontece em 1º de dezembro, no Alta Vila, em Nova Lima. Em 2015, a universidade celebra seus 50 anos de fundação e o curso de Design em Moda tornou-se uma referência em Belo Horizonte, espécie de incubadora de novos talentos, que ao longo do curso desenvolvem habilidades da área, criatividade, foco na história do vestuário. Esse ano, a concepção do projeto é do professor Antônio Fernando Batista dos Santos, coordenador do curso, com Rodrigo Cezário na direção artística e produção executiva da Voltz Design. Os desfiles de formatura, com banca de avaliação, já fazem parte do calendário de passarela em Belo Horizonte. Olhares diversos e criações autorais revelam uma nova geração que envolve vestuário, história, pesquisas e inspirações personalíssimas.

Por A mais B, apresenta um pouco das 24 coleções e suas propostas, que tem entre os alunos Ana Duarte, já em trilha profissional. Ela é co-criadora e design da recém lançada marca mineira ANADU, de joias e semi-joias, e já contou um pouco sobre essa paixão e talento criativo em entrevista à jornalista e editora Anna Foureaux. Para o FUMEC Forma Moda, ela apresenta a coleção Memuh, com peças inspiradas em muros de concreto em forma de arabescos e em uma arte milenar, o grafismo com henna. Tradição das cerimônias indianas, a designer pesquisou a história, os símbolos e os materiais usados nesses ornamentos ancestrais. Formas orgânicas, entrelaçamento de fios e metais, peças com dimensões maiores aparecem na collection. Na a matéria-prima, latão banhado a ouro rose, cravação de água marinha e lapidação na técnica de navete.

 

Chuva de Cores, por Iana Pimentel (Foto: Ana Beatriz Vasconcelos), Shelter, por Ana Soares (Foto: Ana Beatriz
Vasconcelos), Tem Gente Que Nasce Poesia… , por Bárbara Capobiango Santos (Foto: Cilete Cândido) e London Calling, por Bruna Lima (Foto: Bruna Lima)

Chuva de Cores, por Iana Pimentel 
Aquarela, de Toquinho, foi uma das deliciosas inspirações de Iana Pimentel para sua coleção de roupas infantis, inclusive das estampas. “De uma folha qualquer eu desenho um sol amarelo…” diz a letra da música e a jovem estilista seguiu essa trilha de infância feliz, feita de sons e de poesia. Modelagem confortável e roupa com cara e uso para criança nas peças em neoprene e tricoline.

Shelter, por Ana Soares
Tecidos e materiais nobres, incluindo o couro em edição luxo se mixam à leveza de tricô em Shelter. Ana Soares contrapôs em sua coleção aspectos da vida moderna – a busca de um lifestyle sofisticado e sua antítese: as raízes e heranças afetivas e um jeito mais simples e humanizado de estar no mundo. Shapes de formas orgânicas e texturas manuais se destacam nas criações.

Tem Gente Que Nasce Poesia…, por Bárbara Capobiango Santos
Coleção infantil a partir das leituras de Manoel e Barros e suas reinvenções do mundo, das palavras e dos sentidos. Confortável e lúdica, a coleção de Bárbara Capobiango Santos ganhou ilustrações autorais nas estampas inspiradas nos poemas encantadores para gente pequena e gente grande.

London Calling, por Bruna Lima
Uma coleção dupla. O vestuário de London Calling apropriou-se das indumentárias do rock e dos punks, em novas intepretações. E a Bruna Lima, criou também uma linha de sapatos, ao apresentar a collection ao Universo Dakota, que propôs uma parceria com a estilista, com calçados inspirados nos celebrados coturnos militares. Bruna Lima partiu de pesquisas ligando arte e movimentos e protesto. Dos punks, peças com rasgadas em corte a laser e desgastes nas gravações em couro. Toques de glamour no uso do glitter, remetendo também a era disco.

 

Sem Título, por Camila Miranda (Foto: Pedro Estrada), Metamorfose, por Carolina Martins (Foto:Ana Beatriz Vasconcelos), SOS Cerrado, por Cilete Cândido (Foto: Cilete Cândido ) e Tênue, por Daniela Felga (Foto: Ana Beatriz Vasconcelos)

Sem Título, por Camila Miranda – (“A arte ultrapassa o conceito”/ Rui Santana, 1960 – 2008)
Para apresentar sua coleção inspirada no trabalho de Rui Santana, a jovem designer optou por uma performance na passarela. Primeiro, os looks surgirão em negro e durante o desfile, serão retiradas partes das peças deixando aparecer a estamparia colorida, criada a partir de obras do artista. Uma mixagem de texturas envolvendo tecidos vaporosos a pesados, e uma linha de acessórios, em resina e metal, representam as rústicas Pedras Pintadas do artista plástico.

Metamorfose, por Carolina Martins
Uma coleção de lingerie e os estereótipos do corpo perfeito na coleção de Carolina Martins. As peças remetem a desejos de quem veste, com recortes, texturas e estampas. A estilista usou, entre outros tecidos, veludo e tule, e destacou nas cores preto e rose. O luxo da matéria-prima tem também o conforto das modelagens, que brincam com o feminino e seu direito ao próprio corpo.

SOS Cerrado, por Cilete Cândido
Texturas em 3D, recortes a laser extraídos de imagens da vegetação típica do Cerrado, como a palmeira de buriti na coleção de Cilete Cândido. A jovem designer optou por uma criação entre moda e preservação cultural e riquezas vegetais dialogam. Golas volumosas e retorcidas, em alfaiataria, levam a velame-flor. Uma trama toda com fitas simboliza o folclore de Montes Claros. Ela confeccionou também biojoias metalizando folhas do tradicional fruto Pequi. Nos tecidos, destaque para o neoprene dublado em preto e branco, de textura seca, e o contraste da fluidez e leveza das tramas em fita.

Tênue, por Daniela Felga
O preto se destaca na cartela de cores, enquanto o marsala, também sensual, exala feminilidade. Tênue foi criada a partir do espartilho, que retornou à cena da moda em edições confortáveis e sexy. Daniela Felga fez sua releitura da peça, com novas modelagens e materiais das peças estruturadas com barbatanas. Seu mood é revelar a evolução dos trajes femininas e o clima de glamour e sedução envolvendo curvas, seios, pernas, cinturas. Bordados, transparências e tecidos com tiras de tela na coleção.

 

Kilt Cult, por Fernanda Bueno (Foto: Vinícius Portugal), Ím.Par, por Julia Metzker (Foto: Ana Beatriz Vasconcelos), Daqui Pra Onde Vamos, por Laura Guerra (Foto: Breno Mayer) e Lola Leria, por Maria Letícia Barreiros (Foto: Ana Beatriz Vasconcelos)

Kilt Cult, por Fernanda Bueno
O atual mood, das passarelas e das ruas, é a roupa sem gêneros. A coleção Kilt Cult aborda esses conceitos com roupas unissex, mesclando nas criações elementos do closet feminino e masculino. Fernanda Bueno cria uma conexão entre a cultura celta e a brasileira, com intepretações no vestuário em estampas, texturas e silhuetas.

Ím.Par, por Julia Metzker
O cinza prevalece no tricô e jacquard de Ím.Par, assim como o preto em casacos longos em trama fechada, body com brilhos, branco. O vasto mundo urbano, visto das janelas dos altos prédios e o asfalto das metrópoles formam o cenário inspirador da coleção Ím.Par. Formas geométricos, limpas, cortes secos, silhuetas ora estruturadas na coleção de Julia Metzker, que também tem colorido e peças impressas em estamparia 3D.

Daqui Pra Onde Vamos, por Laura Guerra
Etnografia e política permeiam sutilmente Daqui Pra Onde Vamos, coleção que teve como inspiração uma foto de 1989. Nela, índia Tuíra, em sinal de protesto contra a construção da usina de Belo Monte, encosta a lâmina de seu facão no rosto de um representante da construtora. Laura Guerra criou três looks de folhas de lã, optou por tons claros e sóbrios nas cores e mixou materiais – da organza e seda pura à lã virgem e TNT. O vestuário indagando sobre a cultura indígena, na qual roupa, corpo e mundo se entrelaçam.

Lola Leria, por Maria Letícia Barreiros – (“Todo o grande artista amolda a arte à sua imagem” – Victor Hugo)
Pesquisar históricas permitiram a Maria Letícia Barreiros criar a personagem Lola, de sua coleção. Ilustração de moda e as interações entre arte e design são paixões da estilista, que com sua icônica Lola Leria trabalhou uma coleção em style ladylike. São pelas com cinturinha em evidência e o romantismo como de pregas, laços e detalhes em pérola em cores candy. As peças com referência esportiva são o contraponto dessa personagem fictícia com o uso de textura em metalassê, neoprene e transparências. Destaque: a estamparia artística desenvolvida por ela.

 

Simulacro, por Maria Clara Martins  
Trompe l’oeil, a arte de enganar os olhos, foi usada por Maria Clara Martins em sua coleção com modelagens em 3D e peças com volume em estamparia digital. A estilista, em Simulacro, leva para a roupa a humanidade suas várias facetas, com peças que provocam no prints criativos ilusões de ótica. (Foto: Ana Beatriz Vasconcelos)

 

Um Todo, por Marina Nazar
Mariana Mazer aproveitou resíduos de tecidos, especialmente da Faven e Coven em sua coleção, usando matéria-prima que seria descartada. A partir do conceito de sustentabilidade ela propõe renovadas leituras do belo e es estilo nas roupas, misturando cores e estampas – laranja, vermelho e azul marinho, entre elas. Essa mixagem criativa permitiu também silhuetas variadas, ora mais próximas ao corpo; ora mais amplas. (Foto: Andressa Caetano)

 

Congado – Sincretismo Criativo, por Renata Coelho
Franjados, vibrantes dourado, vermelho, verde, rosa e laranja, além de tons terrosos na coleção. A cultura do Congado inspira as criações de Renata Coelhos, que trabalhou tricô e delicados bordados e usou musseline de seda e cetim de seda com aplicações de tiras bordadas em ponto russo nas peças (Foto: Mari Prados)

 

Dress Hunter, por Mariana Baptista (Foto: Dilson Ferreira), Mimese, por Michéllin Freitas (Foto:Luiza Ananinas), Preciosa Dualidade, por Patricia Slaviscki (Foto: Ana Beatriz) e Distúrbios, por Rayssa Colares (Foto: Robson Diniz)

Dress Hunter, por Mariana Baptista
A cultura pop e ícones das décadas de 50 e 90 são referências da coleção, especialmente os figurinos de séries e filmes assinados por Patricia Field. O uso das fotografias remete ao cotidiano de uma garota jovem, em mood high low – aquela receitinha de mixar peças de brechós, retros e preciosidades dos guarda-roupas de avós e mães com as marcas preferidas. Essa jovem criativa leva a uma indagação: quem é essa garota? Em Dress Hunter, Mariana Baptista explora as muitas possibilidades de estilo e invenção no vestuário.

Mimese, por Michéllin Freitas – (“A principal ocupação do espírito humano é esforçar-se por se iludir”- L’Arétin)
Tons metálicos e brancos, couro sintético, gazar, neoprene e matelassê em Mimese. Uma coleção que parte dos relacionamentos digitais e dos espelhos que surgem a partir deles. Narcisismo e conceitos de aparência são indagações de Michéllin Freitas em silhuetas que valorizam o corpo feminino na era da imagem.

Preciosa Dualidade, por Patricia Slaviscki
Da pedra bruta à delicadeza da lapidação na coleção de Patricia Slaviscki, que buscou nas cores das gemas – diamante, rubi, safira e esmeralda – tons de sua coleção. Sofisticação e suavidade em sobreposições transparências; tecidos tecnológicos e rústicos em contraponto à delicadeza em peças com muitas sobreposições.

Distúrbios, por Rayssa Colares
O mundo idealizado das revistas de moda e das passarelas são interrogados em Distúrbios. Em sua coleção, Rayssa Colares trabalha tecidos naturais e sintéticos, shapes justos ou com volume e estruturas de modelagem rígidas ou suaves. Há brilhos e texturas, enquanto tons escuros de cinza e marrom, sofisticados, revelam e beleza do elemento feminino.

 

Maví, por Victória Campos (Foto:Sérgio Rezende), Tramas, por Luiza Senna (Foto:Célio Alves), Gris, por Hellen Formaggini (Foto: Sérgio Rezende e Mizê, por Gabriela Mizerani (Foto:Cilete Cândido)

Maví, por Victória Campos
A renda de filé se destaca nas criações de Victória Campos para Maví. Roupas em clima resort e praia, e também urbanas na coleção, com cortes versáteis e peças intercambiáveis. Marinho, bege e off-white na principal cartela de cores e silhuetas fluidas, valorizando as formas. Maiôs, biquínis, hot pants, saias e tops para serem usados em mar ou terra firme.

Tramas, por Luiza Senna
O silicone é a principal matéria-prima de Tramas, porque permite a substituição da costura na construção das peças. O tricô industrial também se destaca na coleção, que tem shape minimalista, seco, sem excesso de ornamentos. Nas cores, combinações de ocre, vinho, cinza, preto e branco.

Gris, por Hellen Formaggini
Tricôs com tramas irregulares, algumas rústicas – como os fios de seda primitiva. Silhuetas mais estruturadas, mixando sofisticação ao utilitarismo da roupa, com alguns detalhes de volume e peças mais secas, com muitas sobreposições.

Mizê, por Gabriela Mizerani
A arte de Georgia O’Keeffe, o feminismo e os modos e modas do início do século 20 se entrelaçam em Mizê. São vários conceitos harmonizados na coleção de Gabriela Mizerani, como os volumes que vê, das extensas flores de O’Keeffe, ou uma certa rigidez que remete aos antigos espartilhos. Cetins, tules, organzas, crepes aparecem em tons de rosa, cinza, verde e azul, extremamente delicados. Calças e transparências relacionam a evolução do vestuário da mulher. Destaque: textura em bordado 3D em acrílico e organza.

 

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Categoria: Moda e Acessórios