Punk resiste aos modismos e mantém filosofia it yourself, livre dos padrões de consumo

Punk Gi (14)Gilmar Ganmit: “Ser punk é ser libertário, humano, educado. É mais essência do que visual”

 

Giselle Araújo

A moda se apropriou, faz tempo, da indumentária e do clássico moicano da estética punk, mas o movimento, nascido na década de 70, em Londres, não sucumbiu às vitrines de estilo. Adeptos da filosofia do it yourself (faça você mesmo)  vivem menos condicionados aos padrões consumistas. “Ser punk é ser libertário, humano, educado. É mais essência do que visual, uma atitude diante da vida que vai contra os modelos pré-estabelecidos de felicidade, baseados no consumo. É exercitar sua liberdade, a despeito do sistema imposto”, define o músico Gilmar Ganmit, 39 anos, que também desenha e faz roupas, costuma circular de bicicleta e inclui no visual correntes, cintos tacheados e tatuagens.

Essa rebeldia persistente é o que mantém a estética punk, até hoje, no foco da moda. “E os punks não queriam isso”, lembra a professora e pesquisadora de moda Carla Mendonça. “Mas o contradiscurso do movimento é lucrativo até hoje”, diz, ressaltando que “o conceito do it yourself é a essência da moda”. O que é normal, padrão, não gera tendência. A moda vive do diferente, da criatividade, fazendo uma leitura própria. “Mas nenhuma leitura alcança a ideologia, porque nunca vai ser o discurso em si, o movimento”, explica.

Para Claudão Pilha, 50 anos, proprietário do bar dançante A Obra, o punk resiste de duas formas em Belo Horizonte. “Uma é característica da galera da presença punk, de moicano, tacha e escarro, que é histórica, legítima e continua bem efervescente na cidade. Outra é a da galera da filosofia punk, da música, do estilo de vida, e é mais nessa que eu me encaixo”.

Claudão também é DJ, músico, fotógrafo e intérprete de conferência. Foi baterista da banda Os Melda, de 1988 a 2002, e do Estrume’n’tal, de 1997 a 2007. “Não me lembro como o movimento surgiu em BH, sei que na época só existia casa para banda cover e era muito difícil arrumar lugar para tocar. Esse foi um dos principais motivos que me levaram a abrir A Obra, em 1997, junto com meus amigos e colegas de banda, Marcelo, Lino e Bento”, diz.

Punk “na prática”, Ganmit é fundador da banda Consciência Suburbana, que já tocou várias vezes na Obra, e está completando duas décadas este ano, com sua 27ª formação. “Eu resisto”, brinca ele, que através da música expressa o pensamento libertário que o influenciou a adotar o ideal punk como filosofia de vida, ainda na adolescência. “Com 15 anos, eu era dark e ficava distribuindo panfleto político, o que não tinha nada a ver com aquela cena”, recorda Ganmit, que estava começando a tocar violão na época.

Em uma festa, na casa do colega que viria a ser o primeiro baterista da Consciência Suburbana, Ganmit, que tinha 16 anos, conheceu Ramones e começou a se interessar pelo jeito punk de ser. “Depois da música, a ideologia, mais politizada, me atraiu. Participei de várias bandas e, aos 19 anos, fundei a Consciência Suburbana”. Desde então, os shows da banda acontecem nos mais diversos espaços, de casas alternativas a festivais abertos, ruas e quintais.

Além das apresentações da Consciência Suburbana, sempre com agenda cheia, Ganmit também produz e apresenta o programa de TV online Kapitan Underground, que divulga o trabalho de bandas alternativas. As 72 edições que já foram ao ar podem ser vistas no Youtube e, para assistir ao programa ao vivo, às segundas-feiras, 20 horas, basta acessar o Facebook da banda. “Divulgamos o link do nosso canal no Livestream toda semana”, informa.

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Breve história e estilo

O movimento punk surgiu na década de 70, quando os frequentadores da casa de shows CBGB e da cena underground de Nova York formaram e apoiaram bandas que faziam muito barulho, contrapondo-se ao som monumental do rock progressivo, sucesso na época. Da Inglaterra, vieram os ícones do movimento, como as bandas Sex Pistols e The Clash. O momento político era crítico e os punks relacionavam suas músicas e ações à realidade de desemprego e decadência econômica da sociedade britânica. No Brasil, o pano de fundo era a ditadura militar, batendo de frente com os ideais libertários do movimento. Na mesma década, a estilista britânica Vivienne Westwood criou a loja Let it Rock (depois rebatizada Sex), com o Malcolm McLaren, com quem era casada. Ele se tornaria empresário da banda Sex Pistols. A produção dos figurinos dos quatro integrantes ficou a cargo da estilista, que formatou a moda punk, inspirada nas roupas dos operários ingleses.

VEJA VOCÊ MESMO/ Filmografia punk

 

Jubilee (1977) –  De Derek Jarman. Primeiro filme sobre punks.

 

Punk: Attitude (2005) – De Don Letts. Documentário sobre a cultura punk.

 

Botinada (2006) – De Gastão Moreira. Jornalista e ex-VJ da MTV traça a evolução da cultura punk no Brasil, com destaque para a cena paulista.

 

The Decline of Western Civilization (1981) – De Penelope Spheeris. Documentário pioneiro sobre o punk rock americano, focando o cenário da cidade de Los Angeles. Inclui apresentações do Black Flag, Circle Jerks, The Germs e outros.

 

Another State of Mind (1984) – De Adam Small e Peter Stuart. American Hardcore (2006), de Paul Rachman. Conta a história do hardcore punk americano durante a era Reagan.

 

Sid e Nancy,  O Amor Mata (1986) – De Alex Cox. Baseado no romance trágico entre Nancy Spungen e Sid Vicious, o falecido baixista dos Sex Pistols.

 

The Decline of Western Civilization Part III (1998) – De Penelope Spheeris. A diretora volta a retratar a cena punk de Los Angeles vinte anos depois.

 

The Filth and the Fury (2000) – Dde Julien Temple. A história dos Sex Pistols, tendo como pano de fundo a caos social da Inglaterra do final dos anos 1970.

 

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(A jornalista Giselle Araújo é colaboradora do porAmaisB)

Categoria: Usos & Costumes